Em livro sobre cativeiro, Ingrid Betancourt critica ex-assessora e causa polêmica

Ingrid Betancourt ao lado do ex-ministro da Defesa e atual presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos
Image caption A ex-senadora colombiana fala das tentativas de fuga e das relações com outros reféns no cativeiro das Farc

A ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt está causando polêmica no país com seu livro de memórias sobre os seis anos e meio em que passou no cativeiro depois de ter sido sequestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

No livro, intitulado Não há silêncio que não se acabe, ela critica o comportamento de sua ex-assistente e colega de cativeiro, Clara Rojas, que teria pedido autorização a um comandante do grupo guerrilheiro para poder engravidar.

Betancourt e Rojas foram sequestradas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em fevereiro de 2002, no sudeste do país, durante a campanha eleitoral.

A ex-senadora conta que um dos chefes das Farc, Joaquín Gómez teria lhe dito, em uma reunião, que Clara Rojas “reivindicou seus direitos como mulher, falou de seu relógio biológico e disse que não lhe restava muito tempo para ser mãe”.

No livro, Betancourt diz que o pedido de Clara a deixou "perplexa”. Mais adiante, diz que o plano “não era razoável” e que sugeriu à companheira que adotasse um bebê quando fosse libertada.

Mais de um ano depois de ser sequestrada, Rojas ficou grávida e deu à luz uma criança na selva. O filho, Emmanuel, foi entregue a uma família de camponeses.

Desentendimentos

Image caption A afirmação de que a gravidez de Clara Rojas foi premeditada causou polêmica na Colômbia

No livro, Ingrid Betancourt descreve seu progressivo afastamento de Rojas e os conflitos que fizeram com que as duas cortassem relações ainda durante o cativeiro. Ela diz que “era impossível chegar a um entendimento sobre as regras mais elementares de comportamento” no dia a dia, e que sua ex-assistente chegou a afirmar que “não queria escapar porque queria ter filhos, e o esforço da fuga poderia perturbar sua capacidade de conceber”.

Segundo a mídia colombiana, Ingrid não identifica abertamente o pai do filho de Rojas, mas dedica um capítulo a um guerrilheiro chamado Ferney, que teria encontrado, mais de uma vez, escondido no quarto que dividia com Clara.

Rojas, que era assistente de Betancourt durante a campanha presidencial, declarou que o relato de Ingrid é “infame”, e que se sentiu traída pela ex-companheira de cativeiro.

“Se ela tem alguma prova de que eu fiz esse pedido, que apresente, porque nunca escrevi uma carta pedindo isso a Joaquín Gómez”, disse a advogada, em entrevista à emissora colombiana W Radio na última segunda-feira.

Durante a entrevista, Clara Rojas assinalou que não fala com Betancourt desde que foram libertadas, e que não foi consultada sobre as coisas que foram ditas no livro da ex-senadora.

Ela afirmou ainda que recebeu um e-mail de Ingrid na noite da última quinta-feira, pela primeira vez em três anos, pedindo desculpas pela forma como o jornal colombiano El Tiempo relatou as afirmações feitas no livro.

“Gostaria de encontrar com Ingrid de frente para que ela pudesse sustentar as coisas que disse”, declarou.

Clara Rojas foi libertada em janeiro de 2008 e nunca revelou a identidade do pai de seu filho, que foi encontrado pelo governo colombiano em um orfanato em Bogotá, com o nome de Juan David Gómez.

Em entrevistas à imprensa local, ela chegou a admitir que a criança era filha de um dos seus sequestradores, com quem não teve mais contato.

Em 2009, Rojas lançou o livro de memórias Cativa, em que contava sua versão dos desentendimentos com Ingrid Betancourt.

Cautela

Outros ex-companheiros de Ingrid Betancourt no cativeiro reagiram com cautela ao livro. O ex-congressista Orlando Beltrán disse não ter lido o relato, mas reconheceu que durante os quatro anos de cativeiro "foram evidentes as grande diferenças" entre Rojas e Betancourt.

O ex-senador Luis Eladio Pérez, que se tornou amigo da ex-senadora durante o período como refém das Farc, se declarou “positivamente surpreendido” pela “capacidade de memória” de Betancourt.

“Ela narra em detalhe quase todo o seqüestro em uma seqüência perfeita. Reviveu quase todo esse filme trágico que vivemos”, disse Pérez.

Já o embaixador Miguel Gómez, que foi representante da Colômbia na França quando Betancourt se encontrava no cativeiro, disse que não pretende ler o livro. Ele se queixa da ingratidão da ex-candidata com o Estado colombiano e pelo fato de ter viajado à França 24 horas depois do resgate.

Ingrid Betancourt era candidata à Presidência pelo partido Oxigênio Verde quando foi sequestrada, em 23 de fevereiro de 2002, perto de San Vicente del Caguán, no sudeste do país.

Betancourt foi libertada em julho de 2008, em uma operação supervisionada pelo então presidente colombiano, Álvaro Uribe, com a cooperação do presidente venezuelano Hugo Chávez e do presidente francês Nicolas Sarkozy. Ela foi resgatada junto com outros 15 reféns em uma operação do Exército colombiano.

Não há silêncio que não se acabe foi lançado no dia 15 de setembro e será traduzido para nove idiomas.