Concluir acordo Mercosul-UE será desafio para novo governo

Avião da Embraer
Image caption Europa é importante para empresas brasileira de produtos industrializados

O novo governo brasileiro terá pela frente o desafio de concluir um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia que está travado desde 2004, quando os dois lados não conseguiram chegar a um consenso e abandonaram as discussões.

Em maio deste ano, as negociações foram retomadas, mas o acordo só terá chances de ser concluído a partir de 2011.

Mesmo sem um tratado, as relações comerciais apenas do Brasil com a União Europeia duplicaram durante o governo Lula. No entanto, no mesmo período, o intercâmbio comercial com a China cresceu nove vezes, o que reflete a forte ascensão chinesa na economia global na última década.

Apesar de a União Europeia ter perdido espaço relativo, a região ainda tem significativa importância qualitativa no comércio brasileiro. O bloco é o principal comprador de produtos industrializados do Brasil, enquanto que os emergentes ainda consomem mais commodities brasileiras, com menor valor agregado.

Analistas e diplomatas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia é importante para setores brasileiros que produzem bens de maior valor agregado. No entanto, muitos ainda veem com ceticismo a possibilidade de se chegar a um acordo, já que os impasses atuais são exatamente os mesmos de seis anos atrás.

Comprador qualificado

No ano passado, o Brasil exportou para a União Europeia e para a China o mesmo valor em produtos básicos, com baixo valor agregado: US$ 16 bilhões para cada um. No entanto, o Brasil exporta quase quatro vezes mais produtos de alto valor agregado para União Europeia do que para a China.

Em 2009, o Brasil exportou US$ 17,5 bilhões em produtos industrializados para o bloco europeu, contra apenas US$ 4,6 bilhões para a China.

"O Mercosul é uma região que está crescendo de forma sustentável – a 5% ao ano – e também é uma economia que está se desenvolvendo de forma qualitativa, o que o torna um mercado muito atraente para a Europa", disse à BBC Brasil o comissário europeu de comércio, Karel de Gucht, responsável por negociar o acordo entre os dois blocos.

Entre os grandes parceiros comerciais, a China é o que tem mais aumentado a compra de produtos brasileiros, mas são as commodities do Brasil que têm mais atraído interesse do país. Os chineses importam hoje dez vezes mais produtos básicos do Brasil do que no começo do governo Lula. Os países emergentes não têm absorvido as importações brasileiras de artigos mais elaborados.

Nesse contexto, a Europa assume uma importância maior para a pauta de comércio brasileira.

"Não é verdade que o país só vende agricultura para a Europa. Uma coisa que sempre se esquece é que a Europa é um dos nossos principais parceiros em matéria de produtos industriais, de alto valor agregado", afirma Valladão, presidente do conselho consultivo da EUBrasil, entidade que promove a aproximação entre Brasil e União Europeia.

Ceticismo

Há seis anos, as negociações entre os dois blocos econômicos para aumentar as transações comerciais fracassaram.

Brasil, Argentina e os demais países do Mercosul não estavam dispostos a permitir que empresas europeias tivessem maior acesso a compras feitas pelos governos sul-americanos, como pediam os europeus. Já a União Europeia não aceitou reduzir os subsídios agrícolas dado a fazendeiros no bloco, que era a demanda do Mercosul.

Diplomatas que representam o Brasil e da União Europeia – o embaixador brasileiro em Londres, Roberto Jaguaribe, e o comissário europeu para o comércio, Karel De Gucht - disseram à BBC Brasil que veem com otimismo a possibilidade de Mercosul e o bloco europeu chegarem a um acordo.

Mas outros analistas indicam que o clima é de ceticismo. Alguns setores que são contra um acordo que reduza barreiras comerciais entre os blocos chegam a mostrar agressividade.

Na semana passada, enquanto o comissário europeu de comércio, Karel de Gucht, visitava Brasil e Argentina para tratar do acordo, o ministro francês da Agricultura, Bruno Le Maire, disse em uma feira de produtores rurais franceses que a "Europa não é um lixão dos produtos agrícolas da América do Sul".

"Existe uma divergência bastante séria que eu não vejo perspectivas de mudar", afirma o ex-embaixador José Botafogo Gonçalves, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Gonçalves afirma que, como em 2004, a Europa não está disposta a ceder nas questões agrícolas. Desta vez, no entanto, ele aponta um problema adicional: a taxa de câmbio.

A forte valorização do real nos últimos anos tornou os produtos industrializados europeus muito competitivos no Brasil, e prejudicaram as indústrias exportadoras brasileiras. Nesse cenário, dificilmente o Brasil conseguiria ceder às pressões europeias por maior acesso ao mercado brasileiro.

"As dificuldades (para se chegar a um acordo) vão continuar, se é que não vão aumentar", diz Gonçalves.

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