Morte de líder debilita as Farc, mas poderio militar ainda preocupa, dizem analistas

Mono Jojoy, que o governo colombiano declarou morto
Image caption Morte de Mono Jojoy pode provocar mais confrontos armados na Colômbia

Com a morte do líder Mono Jojoy, o segundo na linha de comando das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a estrutura militar da guerrilha deve se debilitar enormemente e terá de ser reestruturada, disseram analistas ouvido pela BBC Brasil.

Porém, segundo especialistas, a maior guerrilha colombiana continua viva militarmente e com poder de desestabilização.

"É o golpe mais forte já sofrido pelas Farc. A guerrilha foi atacada na cabeça. Seu condutor militar, conhecido como o estrategista militar da guerrilha, está morto", disse Camilo González, ex-negociador entre a guerrilha e o governo e diretor da ONG Indepaz.

Apesar disso, "do ponto de vista tático, as Farc continuam com grande capacidade organizacional, têm entre 10 mil e 15 mil efetivos e uma retaguarda importante no sul do país", agregou González, opinando que a morte de Mono Jojoy pode levar a um aumento dos enfrentamentos armados entre guerrilheiros e Exército.

"As Farc vão fazer demonstrações militares de força e o governo tentará contê-las, para mostrar que não é um governo frágil", opinou o analista.

Simbolismo da morte

A morte de Mono Jojoy debilita o chamado “Bloco Oriental” (zona que estava sob seu comando, no centro do país), um dos mais importantes para as Farc, de acordo com analistas.

Outra consequência de sua morte é seu forte simbolismo e o efeito psicológico que pode imprimir nos demais guerrilheiros.

"O fato de que o estrategista militar da guerrilha tenha sido morto em enfrentamento tem um impacto desmoralizador que obrigará a uma reestruturação da tática guerrilheira", disse González.

Mas, do ponto de vista estratégico, ou seja, de alcançar o objetivo de tomar o poder pela via armada, as Farc estão derrotadas, segundo o analista.

"A capacidade da guerrilha de se converter em uma ameaça ao Estado colombiano retrocedeu e eles já não podem reverter esse processo", afirmou González.

O analista político Rafael Nieto, ex-vice-ministro de Justiça, concorda com esta avaliação.

"É um sintoma a mais da derrota estratégica da guerrilha, mas não podemos afirmar que (a morte de Jojoy) é o fim das Farc", disse.

‘Grande notícia’

A operação militar contra o acampamento de Mono Jojoy, o ideólogo militar das Farc, começou a ser preparada ainda no governo do ex-presidente Álvaro Uribe.

Uma semana antes de deixar o poder, Uribe disse que estava muito próximo o dia em que daria uma "grande notícia" ao país.

A política de Uribe – da via militar e não negociada para o conflito – não só se mantém, como se fortalecerá mais no governo de Juan Manuel Santos, depois da morte do líder guerrilheiro, de acordo com analistas.

“O símbolo do terror caiu (...). Ao restante das Farc, avisamos que (...) não vamos baixar a guarda”, afirmou Santos, ao confirmar, em Nova York, a morte do líder guerrilheiro.

O bombardeio ocorreu um dia após a guerrilha voltar a afirmar que estava disposta a estabelecer um diálogo com o governo para negociar uma saída pacífica para o conflito.

Em resposta, Santos disse que o grupo guerrilheiro deveria primeiro abandonar qualquer ação militar e entregar unilateralmente todos os reféns em seu poder.

Na opinião de Camilo González, com esse golpe contra a estrutura da guerrilha, é improvável que as Farc entreguem de maneira unilateral os militares colombianos que ainda têm em seu poder.

A seu ver, "está fechada" a porta para um diálogo negociado que coloque fim ao conflito armado de mais de seis décadas.

"Para o governo, o único caminho para uma negociação de paz é a desmobilização da guerrilha. Mas isso em uma guerra não basta. Esse processo pode levar anos", afirmou.

Notícias relacionadas