A chatice das convenções

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Não me refiro à convenção de tirar ouro do nariz em público. Absolutamente. Sou um ser mais politizado do que isso. Quer dizer, sigo à risca, há algumas décadas, o conselho que o jornalista e escritor britânico Max Hastings ouviu de seu primeiro editor num jornal.

Disse o experiente cavalheiro em questão: “Sempre que estiver entrevistando um político, não se esqueça de se fazer interiormente a pergunta, Por que diabos esse homem está mentindo o tempo todo para mim?” Hastings segue até hoje a lição aprendida e ainda teve a generosidade de passar adiante o cerne de sua experiência jornalística.

Eu me refiro à convenção, ou convenções, no sentido britânico do termo. Mexer com o nariz também não pega bem, mas eu quero falar – ou pelo menos passar de raspão – pela época do ano em que estas ilhas invariavelmente passam, ou melhor, sofrem, ano após ano. São as convenções dos partidos. Que também chamam de conferência, congresso e eu, por conta própria, e ironia, acrescento congraçamento.

Entra ano, sai ano, e, monótona e exaltadamente, os membros de cada um dos grandes – e até mesmo médios e pequenos – partidos se reúnem numa cidade, de preferência balneária (Brighton, Blackpool, por aí), e vão todos discutir os problemas e rumos a seguir pelo partido em questão, tomar decisões para eles vitais, eleger o comitê executivo e por aí afora.

Sempre de forma altissonante e contando com uma generosa e minuciosa cobertura da BBC. Ligue a televisão para ver sua série americana favorita sobre serial killers e você vai dar com um editor político entrevistando (seguirá o conselho que Max Hastings passou adiante?) um figuraço ou uma figurinha política.

Cada um dos grandes partidos – o Conservador, ora no poder, o Labour, o Liberal Democrata – tem algumas centenas de sócios pagos com carteirinha no bolso direito do paletó e um monte de opiniões no esquerdo. Eles influenciam, quando não ditam, os rumos que o partido de seus corações e mentes seguirá. Os rumos não são importantes. Coração e mente não são para essas coisas. O objetivo da política não é explicar mas confundir.

Agora mesmo, em Manchester, a Juiz de Fora inglesa, reuniu-se o partido Labour, ou Trabalhista, que é mais ou menos o que deveria contar sua história, que ficou uma década no poder até perdê-lo para os Conservadores, ora em estágio de coligação (beijinho procê, outro procê também) com os Liberais Democratas e, dizem as pessoas pagas para ter opinião televisual, por um fio e podendo sair um pau entre as duas partes a qualquer momento.

Ao Labour, que, no momento, ainda é o assunto de que mais se fala nos meios cansativamente esotéricos das pessoas que se interessam por política e políticos. No fim de semana, foi eleito o novo líder do partido. O homem que na opinião de algumas centenas de milhares de pessoas deverá conduzir os Labouritas, ou Trabalhistas, de volta ao poder.

Até que foi interessante. Isso porque os favoritos eram dois irmãos: Ed e David Miliband, sendo este último o franco favorito, como dizem os articulistas. Não é que deu zebra? Ao menos sacudindo um pouco a poeira e a leseira que é o mundo em que essa gente – esses estrangeiros todos – vivem. Irmão contra irmão é uma boa.

A coisa acabou sendo decidida no olho mecânico. Ganhou o mais moço, Ed Miliband, por 50,65% dos votos contra 49,35% dados ao irmão mais velho, David Miliband. Fraternal diferença. Ambos são filhos de Ralph Miliband, um judeu polonês marxista que deixou a terra natal devido à perseguição sofrida por sua etnia e filosofia política. Ed Miliband, traduzindo uma expressão idiomática muito empregada por aqui, é o “sabor do momento”, singra a crista de uma onda que só Deus sabe onde rebentará e se dará ou não para a prática do surfe.

Duas coisas, de acordo com minhas pesquisas, mostram suas qualidades de líder. Primeiro, foi contra a incursão britânica no Oriente Médio, tendo se referido ao fato como um “erro trágico”. Segundo, e talvez mais importante, mais de um colega seu de universidade jura que ele era capaz de resolver o velho problema do “cubo mágico” (aquele do húngaro Erno Rubik) em 1 minuto e 20 segundos. E não para aí! Com uma mão só! Com uma mão só!

Daqui posso ouvir o murmúrio geral dos Labouritas: “Dessa vez, a coisa vai!”