Militares tomam quartel e aeroporto no Equador

Protestos em Quito
Image caption Caos tomou conta de Quito; policiais usaram bombas de gás lacrimogêneo

Centenas de militares e policiais do Equador tomaram nesta quinta-feira o maior quartel de Quito, a capital do país, e o aeroporto internacional da cidade, em protesto contra um decreto aprovado pelo Congresso Nacional.

A medida elimina benefícios sociais e afeta os salários dos policiais, disseram representantes da categoria.

O vice-chanceler do Equador, Kinto Luccas, disse à BBC Brasil que "há risco de golpe de Estado" no país.

"O que estamos vendo é que há setores da oposição que estão insuflando essa situação para levar a um golpe de Estado", afirmou Luccas.

O Aeroporto Internacional da capital equatoriana, o Mariscal Sucre, foi tomado por efetivos da Força Aérea Equatoriana e permanece fechado.

Em meio a rumores de golpe de Estado, centenas de equatorianos cercam a sede do governo, o palácio de Carondelet, em demonstração de apoio ao presidente Rafael Correa.

Gás lacrimogêneo

Segundo testemunhas, as forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes durante os protestos.

Em imagens transmitidas pela TV, o presidente do Equador, Rafael Correa, se dirigiu até o quartel tomado pelos policiais e foi recebido com ofensas e pedras.

“Não daremos um passo atrás, se querem tomar os quartéis, se querem deixar os cidadãos indefesos e se querem trair sua missão de policiais, façam isso", afirmou Correa, diante de centenas de policiais.

“Senhores, se querem matar o presidente, aqui estou, matem-me se quiserem, matem se têm poder, matem se têm coragem, em vez de se esconderem entre a multidão", gritou o presidente, visivelmente irritado com a situação.

O chanceler Ricardo Patiño disse que Correa foi levado ao hospital militar e estava cercado.

"Tem gente tentando entrar pelo teto para tirá-lo dali", afirmou. Ele convocou os manifestantes que cercam o palácio de governo a acompanhá-lo ao hospital "para resgatar o presidente". "Vamos juntos, companheiros, resgatar nosso presidente. Não temos medo".

Acessos fechados

A imprensa local afirma que os protestos tiveram adesão dos militares e policiais na cidade de Guayaquil (sudoeste do país), reduto da oposição a Rafael Correa. As principais vias de acesso a Quito foram fechadas.

Diante da crise, Correa poderá dissolver o Congresso, nas próximas horas, utilizando um mecanismo legal chamado "morte cruzada" que permite o fechamento do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas para Presidente e para o Parlamento.

O vice-chanceler disse ter alertado os governos da região – em especial Brasil, Venezuela e Argentina – sobre a crise política no país, pedindo ações em defesa da ordem constitucional.

"Não estamos pedindo a defesa do governo e sim da democracia equatoriana", afirmou Luccas.

Essa é a primeira grande crise institucional que Rafael Correa enfrenta desde que assumiu o poder, em 2007, e deu início à chamada "Revolução Cidadã" no país.

Condecorações

Os policiais recebiam condecorações a cada cinco anos, o que significava um aumento salarial, além de bônus anuais. O decreto elimina esses benefícios.

Entretanto, Miguel Carvajal, ministro de Segurança, disse que o decreto não afeta os salários dos policiais, ao explicar que os bônus antes recebidos a cada cinco anos passaram a ser nivelados e incorporados ao pagamento dos oficiais.

A seu ver, a crise está sendo gerada por uma campanha de "desinformação" que busca "utilizar" os policiais para obter fins políticos.

"Isso é uma campanha de desinformação. Há que se perguntar quem são os que têm interesse em desinformar", disse Carvajal. "Policiais, não se deixem manipular", acrescentou.

De Porto Príncipe, onde realiza visita oficial, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, telefonou para o chanceler equatoriano para expressar "total apoio e solidariedade do Brasil ao presidente Rafael Correa e às instituições democráticas equatorianas".

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