Países dependentes de exportações devem estimular demanda doméstica para crescer, diz FMI

Fundo Monetário Internacional
Image caption Para o FMI, o comércio global está se recobrando bem da crise

Economias que dependiam pesadamente de exportações para países atingidos pela crise terão de impulsionar a demanda doméstica para apoiar seu crescimento no futuro, diz um relatório divulgado nesta quinta-feira pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).

Segundo trechos do World Economic Outlook (“Perspectivas da Economia Mundial”, em tradução livre), divulgados uma semana antes da reunião anual do FMI e do Banco Mundial, o comércio global está se recuperando bem da crise, mas ainda não retomou o terreno perdido.

O documento diz que, como a crise atingiu com mais força economias que respondem por parte considerável da demanda global, a velocidade e a extensão da recuperação das importações desses países terão um impacto considerável no crescimento de seus parceiros comerciais.

O caso do Brasil não é citado no relatório. Segundo analistas, um dos motivos de o país ter resistido melhor à crise do que economias avançadas foi a força do mercado interno brasileiro.

Impacto

O relatório analisa o impacto de crises financeiras sobre o comércio internacional nos últimos 40 anos e conclui que as importações dos países afetados tendem a cair bruscamente nos primeiros dois anos após uma crise financeira e permanecer baixas mesmo no médio prazo.

As exportações, em contraste, tendem a cair menos e se recuperar mais rapidamente, diz o documento.

Segundo o FMI, em países atingidos fortemente pela crise, como os Estados Unidos e a maioria das economias europeias, as importações devem permanecer abaixo dos níveis pré-crise por vários anos.

A grande redução dos déficits em conta corrente em países como os Estados Unidos em 2009, deve, assim, ser duradoura, diz o texto. De acordo com o relatório, a queda nas importações costuma ser maior em países com déficits em conta corrente mais altos.

“As importações também têm desempenho pior quando a crise vem acompanhada de maior depreciação cambial e volatilidade na taxa de câmbio, condições de crédito relativamente mais fracas e maior aumento no protecionismo”, diz o documento.

No médio prazo, condições de crédito ruins também afetam o desempenho das importações.

Consolidação fiscal

Em outro capítulo, o relatório analisa o impacto da consolidação fiscal (aumento de impostos e corte de gastos) no crescimento das economias avançadas. Muitas economias avançadas têm sido obrigadas a adotar medidas de austeridade para reduzir seus grandes déficits orçamentários.

"Nossa análise sugere que a consolidação fiscal geralmente reduz a atividade econômica no curto prazo", diz o FMI.

Para chegar à conclusão, o FMI analisou o impacto da consolidação fiscal nos últimos 30 anos.

Segundo o documento, no prazo de dois anos, um corte de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) no déficit orçamentário tende a reduzir a demanda doméstica em 1%, o crescimento em cerca de 0,5% e a aumentar a taxa de desemprego em 0,33 ponto percentual.

O relatório diz ainda que cortes nas taxas de juros e desvalorização da moeda costumam suavizar o impacto da consolidação fiscal no crescimento.

No entanto, o FMI alerta que esse efeito é menor quando as taxas de juro já estão próximas de zero - caso dos Estados Unidos - ou quando muitos países adotam medidas de consolidação fiscal ao mesmo tempo.

O documento diz que, no ambiente atual, em que os bancos centrais de vários países somente podem oferecer um estímulo monetário limitado, porque as taxas de juro já estão próximas de zero, a consolidação fiscal tende a ter um impacto mais negativo do que o comum no curto prazo.

De acordo com o FMI, porém, no longo prazo a consolidação tem impacto positivo no crescimento.

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