América Latina

Presidente do Equador diz que não negocia sob pressão

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O presidente do Equador, Rafael Correa, disse nesta quinta-feira que não será pressionado a negociar com um grupo de policiais que iniciou protestos contra o governo por causa de uma disputa salarial.

Horas antes, centenas de policiais foram às ruas do país, tomaram o maior quartel da capital equatoriana, Quito, e fecharam o aeroporto internacional da cidade, levando o governo a declarar estado de exceção, protestando contra um decreto aprovado pelo Congresso Nacional que, segundo representantes da categoria, elimina benefícios sociais e afeta os salários dos policiais.

Correa fez as declarações de um hospital em Quito, onde está refugiado.

"Saio daqui como presidente ou cadáver. Eles não me deixaram sair", disse o presidente que afirmou ainda não ter dado ordens para a retirada dos integrantes da Polícia Nacional presentes no hospital para evitar mais violência.

"Não vou negociar nada sob pressão", disse ele ao canal de TV estatal que vem transmitindo em rede de cadeira nacional. Pouco antes ele havia indicado que vê os protestos ocorridos no país, durante os quais ele acabou sendo hospitalizado, como uma tentativa de golpe de Estado.

Em uma declaração publicada no site da presidência, Correa comentou as manifestações e disse que "faz algum tempo" que grupos de policiais "vêm buscando um golpe de Estado porque não conseguem ganhar nas urnas, e há companheiros nossos que não entendem o que é ter uma missão política".

Morto

Os distúrbios causados pelos protestos deixaram pelo menos um morto e vários feridos, segundo fontes oficiais. A morte teria ocorrido na cidade de Guaiaquil.

A organização que representa os órgão de imprensa do Ecuador, a Fundamedios, diz ter registrado 14 episódios de agressão contra jornalistas desde o início dos tumultos.

Na tarde de quinta-feira, o canal estatal Ecuador TV afirmou que suas instalações foram invadidas por policiais que exigiam expor seus pontos de vista.

O governo determinou que todas as estações de rádio e TV suspendessem suas programações e passassem a transmitir o sinal emitido pelos vehículos estatais de forma "indefinida e initerrupta, até segunda ordem".

Pedradas

Durante o protesto no quartel, as forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogêneo para conter os manifestantes. Ao chegar no local, Correa foi recebido pelos policiais rebelados com ofensas e pedradas.

“Não daremos um passo atrás, se querem tomar os quartéis, se querem deixar os cidadãos indefesos e se querem trair sua missão de policiais, façam isso", afirmou Correa, diante de centenas de policiais.

“Senhores, se querem matar o presidente, aqui estou, matem-me se quiserem, matem se têm poder, matem se têm coragem, em vez de se esconderem entre a multidão", gritou o presidente, visivelmente irritado com a situação.

Uma bomba de gás lacrimogêneo explodiu a poucos metros do presidente, que foi rapidamente retirado do local por seus guarda-costas e levado para o hospital.

"Os policiais rebelados estão tentando entrar no meu quarto, pelo teto. Se algo acontecer comigo, a culpa é deles", disse depois Correa em uma entrevista de rádio.

"Gostaria de dizer apenas que meu amor pelos equatorianos é infinito e seja onde estiver eu sempre amarei minha família. Sabia dos riscos e valia a pena, então não se preocupem", afirmou Correa.

Vizinhos

Pouco antes, o chanceler havia convocado os manifestantes a acompanhá-lo ao hospital "para resgatar o presidente", dizendo que havia "gente tentando entrar pelo teto para tirá-lo dali".

Os manifestantes seguiram então para o hospital onde Correa está e, no caminho, acabaram entrando em choque com policiais rebelados.

A imprensa local afirma que os protestos tiveram adesão dos militares e policiais na cidade de Guayaquil (sudoeste do país), reduto da oposição a Rafael Correa e em outras cidades. Em Quito, as principais vias de acesso à cidade foram fechadas.

A crise no país deixou os vizinhos em alerta. Os governos do Peru e da Colômbia fecharam a fronteira com o Equador e a companhia aérea chilena LanChile cancelou todos voos para cidades equatorianas.

Em entrevista ao canal de TV Telesur, o presidente venezuelano Hugo Chávez, disse ter conversado por telefone com Correa, um dos maiores aliados na região.

Chávez disse que Correa havia sido “sequestrado”. “Neste momento, o presidente corre risco de vida. Ele não vai ceder, está disposto a morrer”, afirmou.

Divisões

Há sinais de divisão entre os militares. O Chefe do Comando das Forças Armadas do Equador, Ernesto González, pediu o fim do levante e disse estar subordinado ao presidente. "Vivemos em um Estado de direito e estamos subordinados a mais alta autoridade, que é o presidente da República. Vamos acatar tudo o que o governo decidir."

Diante da crise, Correa poderá dissolver o Congresso, nas próximas horas, utilizando um mecanismo legal chamado "morte cruzada" que permite o fechamento do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas para Presidente e para o Parlamento.

O vice-chanceler equatoriano, Quinto Luccas, disse ter alertado os governos da região – em especial Brasil, Venezuela e Argentina – sobre a crise política no país, pedindo ações em defesa da ordem constitucional.

"Não estamos pedindo a defesa do governo e sim da democracia equatoriana", afirmou Luccas.

Essa é a primeira grande crise institucional que Rafael Correa enfrenta desde que assumiu o poder, em 2007, e deu início à chamada "Revolução Cidadã" no país.

Condecorações

Os policiais recebiam condecorações a cada cinco anos, o que significava um aumento salarial, além de bônus anuais. O decreto elimina esses benefícios.

Entretanto, Miguel Carvajal, ministro de Segurança, disse que o decreto não afeta os salários dos policiais, ao explicar que os bônus antes recebidos a cada cinco anos passaram a ser nivelados e incorporados ao pagamento dos oficiais.

A seu ver, a crise está sendo gerada por uma campanha de "desinformação" que busca "utilizar" os policiais para obter fins políticos.

"Isso é uma campanha de desinformação. Há que se perguntar quem são os que têm interesse em desinformar", disse Carvajal. "Policiais, não se deixem manipular", acrescentou.

De Porto Príncipe, onde realiza visita oficial, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, telefonou para o chanceler equatoriano para expressar "total apoio e solidariedade do Brasil ao presidente Rafael Correa e às instituições democráticas equatorianas".

Colaborou Claudia Jardim, de Caracas para a BBC Brasil

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