Vitória tripla amplia projeção nacional de Aécio, dizem analistas

O ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB) saiu-se triplamente vitorioso desta eleição: além de se eleger senador, assistiu às vitórias dos aliados Antonio Anastasia, ao governo do Estado, e Itamar Franco (PPS), na disputa pela segunda vaga ao Senado.

A comemoração, no entanto, foi ofuscada pela morte, na tarde deste domingo, de Aécio Cunha, pai do ex-governador. Ex-deputado estadual e federal, Cunha morreu aos 83 anos em decorrência de insuficiência hepática, segundo nota da assessoria do governador. Anastasia anunciou que na segunda-feira decretará luto oficial no Estado por três dias.

Afilhado político de Aécio e vice-governador na sua última gestão, Anastasia foi eleito para o governo de Minas com 62,73% dos votos. Hélio Costa, do PMDB, obteve 34,16%.

Na disputa pelo Senado, Aécio e seu companheiro de chapa, Itamar Franco (PPS), foram eleitos com respectivamente 39,49% e 26,75% dos votos, seguidos pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT), com 23,97%.

Analistas ouvidos pela BBC Brasil avaliam que os resultados ampliam a projeção nacional de Aécio, que governou o Estado de 2002 a março deste ano, e refletem a alta popularidade com que encerrou seu mandato – de acordo com o Datafolha, 77% dos mineiros aprovavam a sua gestão no fim de 2009, o mais alto índice entre todos os governadores brasileiros.

Para Oswaldo Dehon, professor de ciências políticas da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), o respaldo se deve, entre outros fatores, à ampla ressonância do estímulo de Aécio por um “sentimento de ‘mineiridade’.

Nos últimos anos, e especialmente durante esta campanha, Aécio pregou a volta de Minas ao centro da política nacional. O Estado, segundo maior colégio eleitoral do país, foi berço de sete presidentes da República.

Alcance nacional

No entanto, ao mesmo tempo em que apela à ‘mineiridade’, diz Dehon, Aécio tenta se mostrar um político moderno e construir uma agenda nacional.

Ele enumera atributos que podem pavimentar o caminho do tucano rumo a uma maior projeção no país: “É jovem (50 anos), tem carreira brilhante, boa capacidade de dialogar e teve papel importante na Câmara dos Deputados (Aécio a presidiu entre 2001 e 2002). Também é herdeiro da tradição política da família Neves (além de neto do ex-presidente Tancredo Neves [1910-1985], seu outro avô e seu pai foram deputados federais), é centrista e demonstra interesse nacional.”

Mas algumas dessas mesmas qualidades, na opinião do professor, podem ser consideradas defeitos se analisadas de outros ângulos.

“A pouca idade pode ser um problema, e ele tem fama de dialogar excessivamente com o governo”.

Dehon também cita, entre as justificativas para a alta popularidade de Aécio, as melhorias de infraestrutura urbana promovidas pelo seu governo, financiadas em grande parte por recursos federais.

Para Heucimara Telles, professora de ciências políticas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a gestão foi favorecida pelas boas relações entre PT e PSDB no Estado, que “enfraqueceram a oposição ao governo e permitiram que Aécio controlasse quase 60% da Assembleia Legislativa”.

Choque de gestão

Apesar do apoio popular, a gestão Aécio não está livre de críticas. Principal bandeira do primeiro mandato, o “choque de gestão” (conjunto de medidas para diminuir despesas e reorganizar o governo) revela, na opinião de Dehon, certas “pitadas de tecnocracia” que teriam permeado seu governo.

Segundo o centro acadêmico dos alunos de Ciências Sociais da UFMG, a política implicou corte de investimentos sociais em áreas como saúde e educação. “Por outro lado, o Centro Administrativo (nova sede do governo, uma das principais obras da segunda gestão de Aécio) custou R$ 1,5 bilhão”, diz a carta.

Para Aloísio Morais Martins, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de MG, o governo Aécio não sabe lidar com críticas e exerce forte pressão sobre a imprensa no Estado. “Hoje, nenhum repórter ou editor se aventura a publicar informações que contrariem interesses do governo”.

Em resposta, a assessoria do ex-governador afirma que o “choque de gestão” se deu por meio do corte de cargos de confiança e permitiu a Minas zerar um déficit de R$ 2,4 bilhões.

Sobre a Cidade Administrativa, diz que a obra gerará para o Tesouro do Estado uma economia de R$ 92 milhões ao ano com a integração de secretarias e órgãos públicos antes distribuídos por 53 endereços diferentes.

A assessoria afirma ainda que o governo “mantém uma postura ética e transparente no relacionamento com os veículos de imprensa no país”, facilitando o acesso a informações sobre programas e investimentos públicos.

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