Nascidos para bailar

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Acabou a espera. Seguindo o exemplo dado pelo Brasil no domingo passado, neste sábado o público pagante britânico vai poder votar. Continuam atrasados os cidadãos destas ilhas.

Não será obrigatório. Mas os analfabetos, que não os há tanto assim, podem participar dos folguedos. E tome traje a rigor e tule. E segurem as plumas. E lá vão lantejoulas.

Refiro-me, é evidente, a esta coqueluche que acabou mundial, atingindo, como uma salsa brava, mais de 30 países no mundo inteiro. Brasil, inclusive, que nós paramos um pouco de blogar, modalidade em que somos hepta-campeões, para dançar – e com estrelas, conforme o nome da versão nacional, originada no “Domingo do Faustão”, “Dançando com as Estrelas”. Aqui é Strictly Come Dancing e vai ao ar todos os anos desde 15 de maio de 2004. Quem transmite é a BBC. Pode ser vista também em Alta Definição e, acredita-se, dentro de pouco tempo, em 3D.

Traduzir o título é difícil. Como todos nós nos cibertizamos e o inglês é a língua franca da net, um trabalho inútil também. Vale uma referência ao filme do Baz Luhrman de 1992, Strictly Ballroom, que, entre vós ganhou o apodo (traje rigor) de Vem Dançar Comigo.

As regras do jogo são simples. Celebridades (quer dizer, 37% da população britânica), também conhecidas como Celebs, no jargão fortemente influenciado pelas fonts informáticas, são coreografadas por bailarinos profissionais que, no decorrer das semanas, que podem chegar a três meses, treinam os concorrentes, que não ganham mais que a honra de aparecer na televisão, como se fossem candidatos a alguma deputança ou senadoria.

Ao contrário do candidato milionário de votos, o popular Tiririca, ninguém, profissional ou concorrente, sofre o vexame de um exame de alfabetização. Como na velha canção, que deverá ser executada qualquer sábado desses, “eu nasci para bailar, para que negar...” E ponto.

Mais um parágrafo.

Diante de orquestra afinada, com crooners competentes, as duplas mistas exercitam seus esforços pelas danças tradicionais (aqui nunca saíram de moda, felizmente) do que eles acham que é (e assim o chamam) samba, cha cha cha, foxtrot, jive, quick step, rumba, tango, valsa, estilo livre (o butterfly não vale) e não sei porque se esqueceram do bolero e da marcha militar.

Há, como em tudo na vida, um painel de juízes, que exercem o papel que, em outras ocasiões e países mais pitorescos, exerceria uma função semelhante à do TSE. Mas o importante mesmo é impressionar favoravelmente o pessoal em casa grudado diante da tela de televisão. Eles, afinal, é que decidirão quem vai ou não vai para o Congresso, digo, o trono de campeões. São, em média, 12 milhões de telespectadores em ação. Nada que se compare a 135 milhões em ação, mas há que se respeitar as devidas e indevidas diferenças. Afinal, são apenas 12 semaninhas a duração da coisa toda.

Os juízes dão notas de até 10. Apenas quando restarem apenas quatro concorrentes, estas passam a ser num máximo de 4. O resto a turma em casa é que sabe e distribui de acordo.

Há turno e mais turno. Como estamos no primeiro mundo, dois só não bastam. Tem que ter 3, 4, 5 o que for necessário. Vota-se pelo telefone, a partir deste sábado, como já disse, e as quantias auferidas são doadas para as devidas caridades. Garantem-me os colunistas categorizados dos primeiros cadernos da vida. Mais os self-important blogueiros de costume, hábito e vício.

O que mais conta, depois da graça nos movimento coreográficos, é o sorriso estampado na face de todos os envolvidos na contenda democrática. Profissionais e concorrentes. Há que sorrir como se posando para anúncio de dentifrício ou creme rejuvenescente. De vez em quando, aqui e ali, um tombo de um salto alto demais. Mas o sorriso, este há que prosseguir, impávido. Perde-se a linha mas nunca o rebolado.

Neste ano, uma ex-parlamentar, Ann Widdecombe, concorre. Ela é conhecida pela extrema feiura, o que não é deselegância de minha parte apontar, pois a dama em questão, ex-deputada pelo Partido Conservador, é a primeira a se gozar. Valeram-lhe, seus dotes físicos, o popular apelido de “Doris Karloff”. Bisturi de cirurgião plástico jamais passou a um centímetro de sua bagagem eleitoral. No que faz muito bem. Por ela e seu garboso instrutor e companheiro e coreógrafo, Anton du Beck, estarei torcendo nas próximas semanas. Minha cabeça cívica está feita.

Bacanérrimo mesmo é o fato de não ter de sair de casa nem apresentar documento nenhum, com ou sem foto, para fazer valer minhas predileções e aspirações democráticas. Estou em terras da Grã-Bretanha. Caindo aos pedaços, mas, ao contrário de muita gente boa aí, a salvo. E quase são.