Poesia & Poder

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

“As mulheres grandes São as grandes mulheres. São elas que os homens preferem. O tipo médio, meu amigo, Ainda passa, Mulher pequena eu não quero nem de graça.

Maria tem um metro e setenta. Teresa tem um metro e oitenta. Porém a mulher que me tenta É a que tem mais de um metro e noventa.”

Pronto. Aí está. Matei dois coelhos de uma só cajadada. Para ser mais preciso, matei dois coelhos de uma só cajadada. O Sr. Coelhinho e a Sra. Coelhinha. O fato da bafejada poética constituir um plágio descarado de uma velha marchinha esquecida de Carnaval é de só menos importância.

Minha musa (“Dona” Arlete), por certo vinha de tomar umas e outras – coitada, ela caneia -, e assim soprou estes versos em meus ouvidos sensíveis A poesia é maior que todos nós e só nela encontramos todas as verdades do mundo. Na cachaça, não, ouviu, “Dona” Arlete! Com a poesia, não tem segundo turno. É 100% no primeiro turno, sim senhor, e estamos conversados!

Voltemos, no entanto, ao Sr. e à Sra. Coelhinha, que há tanto tempo não passavam pelo meu caminho. Por que abati-os com uma só cajadada? Ora, força de expressão, meus caros! Esforços poéticos de minha parte. É que na quinta-feira, aqui no Reino Unido, teve lugar o Dia Nacional da Poesia. O que se rimou por aí, minha gente, não está no gibi.

No metrô, um cavalheiro (aliás bem apessoado) sentou-se ao meu lado e, em voz grave e insinuante, sussurrou-me no ouvido coisas personalíssimas. Posso estar enganado, mas acho que no meio ele comparava meus olhos a “violetas banhadas na champanhe”. Confesso que, pego assim de surpresa, fiquei algo nervoso e não captei todas as palavras que o indivíduo em questão (e que bigodes tinha!) dirigiu-me no particular. Percebi, no entanto, que suas palavras rimavam. Quase jurava que eram metrificadas também, como a Teresa e a Maria dos versos que, sem vergonha, roubei.

Felizmente, o jornal que eu levava aberto no colo, como que por coincidência poética (a ocasião era propícia) mencionava que o 7 de outubro é o Dia Nacional da Poesia por aqui. Fiquei mais descansado. Poesia, afinal, nunca matou ninguém. A não ser Hamlet, Romeu, Julieta, Shelley, Keats, e, no Brasil, Gonçalves Dias e o Fernandão “Sete Dedos” Beltrão, com quem joguei muita sinuca no salão que ficava em cima de um mercadinho na rua Siqueira Campos, em Copacabana, lá pelos anos 50, e que morreu atropelado quando, bêbado, procurava uma rima para, justamente, as palavras “bêbado” e “lâmpada”.

Águas passadas não movem moinhos, nem mesmo para Dom Quixote, volta a me sentenciar com seu bafo pesado “Dona” Arlete, que, do jeito que vai, terminará internada em asilo para incompetentes e incontinentes verbais e otherwise.

Falta agora a segunda vítima de meu poderoso cajado. Sim, ela. Sempre ela. A Sra. Coelhinha. Seguinte: a revista Forbes, essa favorita da classe C brasileira, em sua versão mulher, também um sucessão entre domésticas e donas de casa, acaba de divulgar o ranking anual das cem mulheres mais poderosas do mundo.

Moira Forbes, vice-presidente e publisher (conforme se diz no Amapá) da revista em questão, disse que as 100 mulheres citadas na lista “estão moldando muitas das conversas dos formadores de opinião hoje em dia.” Minha conversa no metrô, com aquele cara da poesia, não foi moldada em nada. Simplesmente brotou de uma ocasião. Como uma flor. Uma violeta. Além do mais, não sou, nem o cavalheiro das rimas e bigodes o é, formadores de opinião. Voltemos a quem sabe das coisas, a Forbes Woman.

Liderando o rol das Top Ten, como se diz em Sergipe, está Michelle Obama, logo adiante de Irene Rosenfeld, executiva da Kraft Foods, e da empresária e comunicadora Oprah Winfrey. Entre as Top Ten ainda, a presidente alemã Angela Merkel, Hillary Clinton (que dispensa apresentações) mais as cantoras Beyoncé Knowles e Lady Gaga, com Ellen Degeneres fechando a lista.

As únicas brasileiras a moldar (opiniões, lembremos) foram Gisele Bundchen (72º lugar) e Dilma Rousseff (95º). Tem nada, não. A gente ainda chega lá. O segundo turno vem aí.