França enfrenta a maior onda de protestos contra reforma previdenciária

Protesto em Paris nesta terça (Foto: Getty Images)
Image caption Manifestantes querem que governo recue em reforma previdenciária

A França enfrentou nesta terça-feira mais uma greve contra a reforma da Previdência que prejudicou o funcionamento, ao longo do dia, de setores como o dos transportes e das refinarias de petróleo.

Esta é a quarta - e maior - greve contra a reforma a paralisar o país desde setembro. Segundo a polícia, pouco mais de 1 milhão de pessoas participaram das manifestações. Os organizadores, no entanto, afirmam que 3,5 milhões foram às ruas.

Centenas de passeatas ocorreram em várias cidades do país, em oposição ao aumento da idade mínima para aposentadoria de 60 para 62 anos, elemento central da reforma defendida pelo presidente Nicolas Sarkozy.

O texto da reforma já foi aprovado pelos deputados e está sendo examinado atualmente pelo Senado, que deve concluir a votação no final desta semana. O governo defende que a reforma é essencial para sustentar o sistema previdenciário do país, mas os sindicatos alegam que os trabalhadores mais pobres serão os mais afetados.

“Essa é uma das últimas ocasiões para fazer o governo recuar”, afirma François Chérèque, secretário-geral da confederação sindical CFDT.

Os senadores já aprovaram dois artigos polêmicos da reforma. O primeiro é o aumento progressivo da idade para se aposentar, que atingirá 62 anos em 2018, e o segundo prevê o aumento do limite de idade para ter direito à aposentadoria integral de 65 para 67 anos, no caso dos que não atingiram o tempo de contribuição exigido.

Efeitos

A greve afetou fortemente nesta terça-feira os transportes urbanos, aeroportos e portos em todo o país e também impediu o funcionamento parcial de escolas, correios, hospitais e os setores de energia e telecomunicações.

Um dos setores mais atingidos foi o petrolífero, forçando uma elevação nos preços do óleo diesel na Europa.

As seis refinarias do grupo Total estão sendo afetadas pela greve. Os trabalhadores do setor já votaram na semana passada a favor de uma paralisação por tempo indeterminado na maioria das refinarias.

Há estimados 56 navios petrolíferos e 29 cargueiros parados no porto de Fos-Lavera.

A eventual continuidade da mobilização nesse setor já preocupa as organizações patronais, que temem o risco de falta de combustível no país no curto prazo.

No aeroporto de Orly, nos arredores de Paris, metade dos voos foi cancelada nesta terça. A greve atingiu também 30% dos voos dos aeroportos Charles de Gaulle e Beuvais.

Até mesmo os funcionários da Torre Eiffel, em Paris, decidiram fazer greve nesta terça. Os turistas tiveram de ser retirados do local.

Quase 300 escolas secundárias também se juntaram aos protestos, segundo o Ministério do Interior, sendo que 90 delas ficaram totalmente bloqueadas.

Apoio

O endurecimento dos protestos contra a reforma da Previdência, por meio de greves por tempo ilimitado, divide, no entanto, os sindicatos franceses. Alguns estimam que isso poderá trazer riscos para os trabalhadores.

Segundo uma pesquisa Ipsos para a rádio Europe 1, divulgada no domingo, 31% dos franceses afirmam ser a favor de uma greve de longa duração, mas quase a metade espera que o movimento termine rapidamente.

O conflito social também corre o risco de se radicalizar nesta semana, com o início da participação dos estudantes nos protestos, o que é considerado um fator chave para pressionar o governo.

Os sindicatos franceses preveem novos protestos no próximo sábado e alertaram que poderão fazer paralisações que seriam renovadas diariamente por meio de votações dos trabalhadores.

No caso dos transportes, em Paris, a greve já foi aprovada em assembleia sindical e deve se manter nesta quarta-feira.

Com reportagem de Daniela Fernandes, de Paris para a BBC Brasil

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