Natal nos ares

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Cacoete britânico muito importante, além de sino bimbalhar, é, no Natal, saber, promover, comprar, dar e ganhar o disco que estiver em primeiro lugar nas paradas de sucessos.

Seria de se esperar mais bom senso por parte dos habitantes locais. Ao que parece, não é o caso. Sejamos francos: é sempre a mesma besteira nas paradas. Do 1º de abril ao Dia dos Namorados, passando pelo Real Aniversário da Senhora Dona Rainha Elizabeth. É fetiche esse negócio de número um.

Antigão que sou, eu cantaria velho sucesso de Orlando Silva, o Cantor das Multidões, e encaixaria lá, em que parada passasse por mim, aquele fox-trot que diz “…pois entre os teus mil amores eu fui o número um…”.

Agora, com outubro ainda no ar, já estão especulando um primeirão natalino. As paradas aqui contam com 40 músicas, ou faixas, ou ainda, discos. A origem remonta a 1952 quando o esquema foi adotado pela indústria fonográfica e o número não é apenas aleatório: é que 40 era o número de discos que os velhos e muito amados juke boxes comportavam.

No momento, há duas correntes. Uma tende a promover um primeiro hit na parada para o veterano crooner Bing Crosby, aquele que ensinou, com Louis Armstrong, o mundo a cantar. De Orlando Silva a Jean Sablon e outros que a maior parte dos leitores e ouvintes nunca ouviram falar, ocupados que estão em procurar saber qual das 107 novas bandas e 86 cantores (cantores?) pop vale a pena baixar do computador para o engenho infernal de que dispõem.

Bing Crosby é veterano ainda como morto. Deixou-nos em agosto de 1977, mesmo mês de e ano de Elvis Presley, depois de uma partida de golfe na Espanha. Quer dizer, tanto ele, quanto o “Rei”, que, por sinal, também era bom de cadeiras e cordas vocais, já têm 33 anos que gorjeiam para São Pedro e o resto da tchiurma lá em cima.

Elvis emplacou vários primeirões nas paradas. Bing nenhum. Daí a tentativa de corrigir a injustiça, embora El Bingo, como o chamavam no México, tenho a sua versão de White Christmas, da autoria do esplêndido Irving Berlin, entre os discos mais vendidos da história. Pode ter enchido o saco, até de Papai Noel, concordo, mas que eles merecem, lá isso merecem: Bing e Berlin.

Daí a campanha para fazer do “Natal Branco” um Natal que não passe em branco. Claro que eles não poderiam simplificar a coisa e apenas promover o disco. Esse tempo passou. Estamos em plena era do remix. Até nossa Carmen Miranda, tadinha, foi “remixada”. Não deveriam mexer, ou remexer, e principalmente remix “monstros sagrados”. Deixá-los em paz com o talento que Deus lhes deu, eles aprimoraram e nos deixaram como legado.

O resultado é que vão “remixar” (deixemos de pudores e chamemos logo pejorativamente de “mixar”) Bing com o baixo Bryn Terfel. Se é molho que querem, exagerem no vinho da gemada e deixem em paz cantor popular clássico, feito Bing, ou operático, feito o Bryn.

Bing, Bryn. Ouço um sino além. Será que veio da assonância a ideia? Capaz. O que esse pessoal tem na cabeça, olha, vou te contar. Bing, Bryn: ouço renas.

Agora o outro rival para primeirão paradesco natalino: o impagável compositor e intérprete clássico americano, John Cage. O que ele vai cantar? Jingle Bells? De jeito nenhum. Estão a caitituar sua mudérrima composição 4'33", que constitui precisamente desse espaço de tempo em silêncio absoluto. Dessas malandragens a que, um dia em que ninguém tinha nada de melhor a fazer, resolveram chamar de “moderno” – e tome aspas nisso.

Um adendo: o brasileiro Wagner Carrilho, de 53 anos, que vem constrangendo seus conterrâneos nestas ilhas situado por sua participação num terrível e popularíssimo (as duas coisas em geral vêm juntas) programa de calouros, supostamente de luxo, não pretende dar nenhum vexame neste Natal a não ser se aguentar o máximo que puder no que aqui é chamado de The X Factor. Nem tudo está perdido.