Para economista, ação dos EUA diminui eficácia de medidas sobre câmbio no Brasil

Cédulas de dólar
Image caption Banco central dos EUA tem imprimido moeda para estimular a economia

A quantidade “excessiva” de dólares que vem sendo colocada no mercado pelo governo dos Estados Unidos diminui a eficácia das medidas adotadas sobre o câmbio no Brasil, diz Alfredo Coutiño, diretor para América Latina da agência de classificação de risco Moody’s.

“Enquanto os americanos continuarem imprimindo dólares, o real vai se valorizar de qualquer forma, não importa que tipo de controle de capital seja colocado em prática”, diz o economista.

Mesmo tendo deixado o pior da crise financeira para trás, os americanos ainda encontram dificuldades para fazer sua economia deslanchar: o consumo interno custa a reagir e o desemprego chega a 9,6%.

Sem espaço para uma redução dos juros, que já estão perto de zero, a saída para estimular a economia local tem sido a impressão de moeda – e com mais dólares no sistema financeiro, a cotação da moeda americana cai, enquanto a moeda de outros países tende a se valorizar.

Na opinião de Coutiño, a moeda brasileira tem uma “forte tendência” de alta frente ao dólar, mesmo com as medidas anunciadas recentemente para coibir o fluxo de moeda americana para o país.

“Essas medidas podem reduzir a velocidade com que os dólares entram no Brasil, mas esse dinheiro não vai parar de entrar”, diz o economista. “Ou seja, a tendência é de valorização do real”, acrescenta.

Mais dólar e juros

O governo brasileiro já anunciou três medidas para tentar diminuir o fluxo de dólares para o país, com dois aumentos consecutivos do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incide sobre os investimentos estrangeiros em renda fixa (títulos do governo).

Mas as medidas parecem não ter surtido um efeito expressivo: desde que o primeiro aumento do IOF foi anunciado, no início do mês, o dólar permanece praticamente estável, variando de R$ 1,69 para R$ 1,70.

Na avaliação de Coutiño, a impressão de dólares pelo governo americano – que tende a continuar, além das perspectivas positivas da economia brasileira e dos juros altos pagos no Brasil, farão com que os dólares continuem entrando no país.

“Mesmo que o governo brasileiro anuncie novas medidas de controle de capital, não acredito que o capital estrangeiro vá sair do Brasil”, diz.

“O prêmio para se investir no Brasil é alto: o país tem ótimas perspectivas econômicas e oferece uma taxa de juros real que é extremamente atrativa quando comparada com a de outros países”, acrescenta.

Uma moeda desvalorizada beneficia as exportações de um país, o que ajuda empresas locais e, indiretamente, a geração de empregos.

De forma contrária, uma moeda valorizada estimula as importações, contribuindo para um desequilíbrio nas contas externas de um país com o resto do mundo.

Uma solução para essa disputa será discutida na reunião dos presidentes que formam o G20, marcada para os dias 11 e 12 de novembro, em Seul.

Responsabilidade

O economista da Moody’s também aponta os Estados Unidos como “principais responsáveis” por uma guerra cambial entre os países, que segundo ele já está em curso.

Além do Brasil, diversos outros países, como Japão e Coreia do Sul, anunciaram medidas com o objetivo de frear a valorização de suas moedas frente ao dólar.

“Alguém começou essa disputa. E esse alguém são os Estados Unidos, que estão imprimindo dólares em excesso, valorizando as moedas de outros países”, diz Coutiño.

Ele discorda de que China seja o principal responsável pelo desequilíbrio cambial no mundo, como argumentam os Estados Unidos.

“A China vem se defendendo do dólar americano há anos. Eles não são um inimigo novo”, diz.

Enquanto as grandes economias do mundo utilizam o sistema de câmbio flutuante, permitindo que o valor de suas moedas seja definido pelo mercado, a China adota o sistema de câmbio fixo, controlado pelo governo.

“Cada vez que os Estados Unidos desvalorizam o dólar, a China faz o mesmo com a sua moeda. Mas não são eles os principais responsáveis por essa disputa cambial que estamos vendo hoje”, diz.

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