Eleição em Nevada é retrato da disputa entre democratas e conservadores nos EUA

Joe Biden (esq.) e Harry Reid durante comício em Nevada (AP)
Image caption O vice-presidente Joe Biden foi a Nevada para dar apoio a Harry Reid

A menos de uma semana das eleições legislativas nos Estados Unidos, o cenário da disputa no Estado de Nevada (oeste do país) é um exemplo da luta do partido Democrata, do presidente Barack Obama, para manter a maioria no Congresso diante do avanço de candidatos conservadores.

Na corrida eleitoral em Nevada, o líder democrata no Senado, Harry Reid, enfrenta a ameaça de perder sua vaga para a candidata republicana, Sharron Angle, que tem o apoio do Tea Party, movimento conservador contrário às políticas do governo Obama.

No Senado desde 1986 e em busca do quinto mandato, Reid é o mais alto membro do Congresso a ter sua cadeira em jogo nas eleições de 2 de novembro.

"A eleição aqui no Estado diz respeito à disputa nacional", disse à BBC Brasil o cientista político Eric Herzik, professor da Universidade de Nevada em Reno.

"Obama não concorre nestas eleições. Reid, o líder da maioria democrata no Senado, é o melhor substituto que as pessoas têm no sentido de votar contra o governo Obama."

Campanha

Na reta final da campanha, o vice-presidente americano, Joe Biden, e o próprio Obama viajaram ao Estado para participar de comícios em apoio a Reid.

"Os anúncios de que o Partido Democrata está morto são exagerados. Harry Reid vai ser reeleito e vai voltar como líder do Senado, como líder da maioria democrata no Senado", disse Biden em um comício na cidade de Reno, na semana passada.

O evento, realizado no ginásio da Universidade de Nevada, reuniu algumas centenas de democratas, que carregavam cartazes de apoio a Reid e defendiam a atuação do senador.

Image caption Bearsto se diz preocupada com uma possível derrota de Reid

"Ele se importa conosco. Se perdermos Harry Reid, perdemos Nevada no Senado. Sem ele, nosso Estado não vai ter voto", disse à BBC Brasil a democrata Marcia Bearsto, 58 anos, funcionária de um escritório em Reno e eleitora de Reid em todos os pleitos nos quais o senador concorreu.

As últimas pesquisas de intenção de voto, porém, dão a Reid 47%, atrás de Angle, que tem 50%, segundo levantamento do instituto Rasmussen.

Há meses os dois candidatos aparecem quase empatados nas pesquisas, e a disputa em Nevada é uma das mais acirradas do país nestas eleições.

Polêmica

Considerado o político de maior destaque nacional que Nevada já teve, Reid enfrenta uma adversária polêmica, criticada por muitos no próprio Partido Republicano por causa de suas posições diversas vezes classificadas de extremas.

Angle já defendeu a extinção dos departamentos de Educação e de Energia e a privatização da seguridade social, e é crítica ferrenha das medidas de resgate aos bancos e da reforma do sistema de saúde aprovada pelo governo Obama no início deste ano.

Também é famosa por cometer gafes. Em uma das mais recentes, disse a um grupo de estudantes hispânicos que eles pareciam mais asiáticos do que latinos.

Apesar dos deslizes, Angle arrecadou US$ 14 milhões (cerca de R$ 23,7 milhões) de julho a setembro, em uma campanha fortemente apoiada pelo Tea Party, movimento que reúne diversos grupos conservadores que têm em comum a posição contrária à presença do Estado na economia e em outros setores.

Na semana passada, um desses grupos, o Tea Party Express, escolheu Nevada como ponto de partida de uma caravana que vai passar por 30 cidades em diversos Estados às vésperas das eleições, com uma programação de diversos eventos e comícios em apoio a candidatos conservadores.

Decisão

Com posições contrárias a quase tudo que Reid defende, a campanha de Angle atraiu a atenção de conservadores de todo o país para Nevada, e o Estado, que em 2008 votou em candidatos democratas em todos os níveis de governo, poderá agora tirar o político mais poderoso do Senado de sua cadeira.

Image caption Apesar das gafes, Angle já arrecadou US$ 14 milhões para campanha

"Reid é um político poderoso, mas não é carismático. Não é um político amado pelo povo", diz Herzik.

A proximidade do senador com Obama, que em seus dois anos de governo adotou políticas impopulares, e a oposição de Angle à interferência do governo em vários setores da sociedade fazem com que analistas afirmem que a disputa em Nevada é na verdade uma decisão sobre o papel do Estado.

Tanto a associação de Reid com o governo Obama quanto a proximidade de Angle com o Tea Party também provocam rejeição de parte do eleitorado, e muitos em Nevada dizem que a decisão será entre o menor dos males.

Apoiadores de Reid afirmam que, apesar do desempenho de Angle, o senador pode surpreender e lembram que no passado ele já venceu disputas tão acirradas como esta.

O quadro geral no país para os democratas, porém, leva alguns analistas a prever que o partido vai perder a maioria na Câmara dos Representates e muitas cadeiras no Senado.

"Acho que vão perder o controle da Câmara. Duvido que isso ocorra no Senado, mas a margem deverá ser muito próxima, o que vai retardar a agenda democrata. De 2010 a 2012 pode haver ainda mais impasse em Washington do que houve nos últimos quatro ou seis anos", diz Herzik.

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