Diante da Casa Rosada, argentinos homenageiam Néstor Kirchner e apoiam Cristina

Nestor e Cristina Kirchner em reunião da Unasul, no início de outubro (Reuters)
Image caption Nestor Kirchner vinha sofrendo com problemas cardíacos

Admiradores do ex-presidente argentino Néstor Kirchner, que morreu nesta quarta-feira, se reuniram à noite na Praça de Maio, em frente à sede da Presidência da República, a Casa Rosada, em Buenos Aires.

Com faixas, cartazes e bandeiras do país e de seu time de futebol, o Racing, eles cantaram e bateram palmas para homenagear o ex-líder e para apoiar a presidente Cristina Fernández de Kirchner, viúva do ex-presidente.

Kirchner, que tinha 60 anos, morreu na cidade de El Calafate, Província de Santa Cruz, sul do país. Internado às pressas no Hospital José Formenti, ele teve morte súbita após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Esta havia sido a terceira internação de Kirchner somente este ano.

Segundo o governo, o velório começará nesta quinta-feira, na Casa Rosada, e deverá durar dois dias. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou no início da noite que irá para Buenos Aires na sexta-feira para participar da cerimônia.

Além de Lula, são esperados os presidentes da Bolívia, Evo Morales, da Venezuela, Hugo Chávez, da Colômbia, Juan Manuel Santos, e do Uruguai, José Pepe Mujica.

A presidência argentina decretou três dias de luto. Até o fim da noite, Cristina não tinha aparecido em público e não tinha feito declarações ao país.

Marcha peronista

Na Praça de Maio, a multidão gritava "Olé, olé, olé, Argentina cada dia te quero mais. Néstor, Cristina". Os simpatizantes dos Kirchner também improvisaram cânticos, chamando de "traidores" os que não apoiarem a presidente e sucessora do ex-marido.

E cantaram a tradicional marcha peronista – marca do principal partido político do país, o Partido Justicialsta (PJ, peronista), do qual Kirchner era presidente. "Hoje é um dia muito triste para mim, para meus sonhos de um país melhor", disse uma admiradora, que se identificou apenas como Marisa.

"Não esperava por isso. Pensei que ele fosse candidato a presidente no ano que vem", disse o técnico em informática Marcelo Gomez.

Os cartazes diziam "gracias Kirchner" e "força Cristina". No meio da praça, rodeado com bandeiras com rostos da ex-primeira dama do país, Evita Perón, e do ex-guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, foi pendurado um imenso boneco inflável simbolizando o rosto da presidente.

O taxista Miguel angel, 55 anos, disse que não estava comovido: "Minha única preocupação é o que vai acontecer com o país de agora em diante". Ele afirmou que não era eleitor dos Kirchner.

'Braço forte'

Kirchner governou a Argentina entre 2003 e 2007, tendo sido sucedido por Cristina Fernández de Kirchner. Em maio, ele havia assumido o cargo de secretário-geral da Unasul (União das Nações Sul-Americanas).

Antes de chegar à Presidência, ele foi prefeito de Río Gallegos (capital de Santa Cruz) entre 1987 e 1991 e governador da Província entre 1991 e 2003. Em 2009, ele foi eleito deputado federal, com mandato válido até 2013.

À frente do Partido Justicialista (PJ, peronista), o maior da Argentina, o ex-presidente era apontado por analistas como o “braço forte do governo” da mulher.

Ele era cotado para ser candidato à Presidência novamente nas eleições de outubro do ano que vem.

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Cartazes na Casa Rosada

Durante todo o dia, cidadãos colocaram flores e pequenos cartazes em frente à Casa Rosada, no centro da cidade. "Força, presidente Cristina", dizem alguns dos papéis, escritos à mão.

Famílias inteiras chegam à Casa Rosada, algumas levando a bandeira do país pendurada nas costas.

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A residência do casal na cidade de El Calafate, onde Kirchner nasceu e morreu, foi cercada por um forte esquema de segurança, de acordo com a imprensa local.

Alvo de fortes críticas da oposição durante seu mandato, Kirchner foi definido por seus adversários políticos nesta quarta-feira como um homem de "convicções".

“Como eu, certamente todo o país hoje está apoiando a presidente, sem diferenças políticas", disse o ex-presidente Eduardo Duhalde, opositor de Kirchner e integrante do peronismo dissidente à linha kirchnerista.

O vice-presidente do país, Julio Cobos, adversário político do casal presidencial, disse estar "impactado" com a notícia e que estava tentando falar com a presidente para prestar sua solidariedade.

O ex-presidente Carlos Menem, que governou o país entre 1989 e 1999, disse que o momento é de apoiar a presidente. "Todos devemos ajudar a senhora de Néstor Kirchner. Que ela não tenha inconvenientes para governar. É hora de apoiá-la", disse.

O também ex-presidente Fernando de La Rúa, que esteve à frente do país entre 1999 e 2001, quando renunciou, disse que é hora de "valorizar a paz acima das diferenças políticas".

Segundo ele, a presidente estará, a partir de agora, "sozinha e é preciso ajudá-la, em um âmbito de mais reflexão e de diálogo".

O prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, também de oposição ao casal Kirchner, já deu suas condolências à presidente, segundo relata a imprensa local.

Empresários e movimentos sociais

A morte de Kirchner também foi lamentada por líderes empresariais e de movimentos sociais. "Ele deu a vida pelo país", afirmou a presidente da ONG Avós da Praça de Maio, Estela de Carloto.

"É preciso ajudá-la (Cristina Kirchner) para que seja mantida a governabilidade e para que não apareçam oportunistas (contra o governo)", disse o presidente da União Industrial Argentina (UIA), Hector Mendez.

Já o presidente da Federação Agrária, Eduardo Buzzi - líder da greve do setor rural que paralisou a Argentina no início do governo da atual presidente -, disse que não há "riscos de sustos" para a democracia argentina porque, segundo ele, "Cristina não é Isabelita Perón".

Isabelita foi mulher do ex-presidente Juan Domingo Perón e governou o país entre 1974 e 1976, quando foi derrubada por um golpe militar.

Problemas de saúde

Com um histórico de problemas cardíacos, Kirchner foi submetido a uma cirurgia em fevereiro, para desobstruir uma artéria. Em setembro, ele foi submetido a um angioplastia.

Outra internação ocorreu em 2004, durante seu mandato, devido a problemas gástricos.

Em 2006, surgiram rumores de que sua dieta estaria sendo limitada devido a problemas de saúde.

Segundo assessores, Kirchner se alimentava com pouco sal e realizava uma hora de caminhadas diárias.

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