Mercado financeiro argentino volta a ter ganhos após morte de Kirchner

Néstor Kirchner
Image caption Néstor Kirchner era cotado para disputar a Presidência em 2011

O mercado financeiro argentino teve nesta quinta-feira desempenho bastante positivo pelo segundo dia consecutivo, com valorização dos títulos da dívida pública e a melhora no índice que mede a capacidade do país em honrar suas dívidas.

Analistas ouvidos pela BBC Brasil atribuem os resultados à avaliação, entre os investidores, de que a morte do ex-presidente Nestor Kirchner, na quarta-feira, abre espaço para a melhoria da relação entre o governo e o mercado financeiro.

Segundo o site America Economia, as ações do Grupo Clarín tiveram alta de 40% nas últimas horas. O grupo, que publica o principal jornal do país, vem travando uma disputa judicial com o governo argentino.

Outro site, o Infobae, informou que o risco-país da Argentina, medido pelo banco JP Morgan, caiu ao menor nível desde antes da crise entre o governo de Cristina Kirchner e os produtores rurais, em 2008.

Na quarta-feira, o jornal El Cronista, de Buenos Aires, informou logo após a morte do ex-presidente que ações e bônus do país foram valorizados em até 50%.

Risco-país

“O risco-país cai porque tudo indica que a Argentina passaria (após a morte de Kirchner), com o tempo, a ter um governo com relação mais amistosa com os mercados e a comunidade de negócios”, diz o economista Miguel Kiguel, ex-secretário de Finanças do país.

“O otimismo reflete, principalmente, um panorama melhor, a partir da posse do novo governo, no fim do ano que vem. Os temores de uma radicalização com um terceiro mandato ‘Kirchnerista’ se dissiparam”, afirmou.

Néstor Kirchner era cotado para ser candidato à sucessão da esposa, a atual presidente Cristina Kirchner, cujo mandato termina em 2011.

Nos quatro anos de governo do ex-presidente (2003-2007) e em três dos quatro anos de Cristina (2008-2011), a Argentina teve grande crescimento econômico e quitou sua dívida com o FMI. Estima-se que o Produto Interno (PIB) tenha se expandido acima dos 40% e que as reservas do Banco Central tenham triplicado.

No entanto, empresários de diferentes setores passaram a sentir os efeitos das barreiras à importação e outras medidas que "limitavam" seus negócios ou geravam "incertezas", segundo um importador do setor de eletrodomésticos que não quis ter o nome divulgado, por medo de represálias.

Segundo o especialista Ernesto Kritz, a nacionalização de alguns setores, como os fundos de pensão e de aposentadorias, não agradou o mercado financeiro, assim como a manipulação pelo governo dos dados de inflação.

Apesar disso, o analista econômico Raul Ochoa, professor da Universidade Tres de Febrero, acredita que a ausência de Néstor Kirchner terá um impacto político maior do que o econômico.

"Acho ingênuo o pensamento de que era (Néstor) Kirchner quem determinava as medidas do governo de Cristina. Eles agiam como casal político. A preocupação, porém, é com o que vai acontecer com a base governista, essa sim organizada por ele e não por ela. A ausência de Kirchner, neste sentido, vai gerar um vazio".

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