Rica listinha de mortos

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Celebridade boa é celebridade morta. Um ditado popular que acabo de cunhar. Dessas inspirações que batem na gente às vésperas de eleições. Assanhamentos aspiracionais.

Os fatos não me desmentem. Toda a mídia global noticiou o espetacular evento: Michael Jackson é a celebridade morta mais lucrativa. Quem o afirmou, com sua habitual autoridade, foi a revista Forbes, que se ocupa de coisas e causos dos muito ricos. E nós, pobretões ou remediados, queremos saber de tudo.

A Forbes, versão mulher, dita Forbes Woman, ainda recentemente criou manchetes ao noticiar que Monique, digo, Michelle Obama, é a “mulher mais poderosa do mundo”. À frente de presidente alemã, industrial americana, secretária de Estado Hillary Clinton e por aí afora. Bem afora mesmo.

O que a faz a mulher mais poderosa do mundo? A revista não entrou em detalhes, porque detalhes não há. Resta o único fato concreto e plausível: Michelle Obama é a mulher mais poderosa do mundo porque dorme com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ponto.

Assim caminha a Humanidade. Não se abana mais com a célebre Revista do Rádio, conforme queria Nelson Rodrigues, mas com a revista Forbes, versão para homens e versão para mulheres, como banheiros lá no fundo do restaurante, sempre à esquerda da caixa e pouco antes da cozinha.

Queremos saber dos ricos. Que são muito diferentes da gente. Exatamente como disse e escreveu Scott Fitzgerald, o que lhe mereceu uma boa gozada por parte do sacana do Ernest Hemingway, que comentou, “São diferentes, sim. Têm mais dinheiro.” Hemingway não entendia nada de rico e nem de dinheiro. Talvez por isso mesmo tenho botado a espingarda na boca e apertado o gatilho alguns depois de mexer com o pobre do Fitzgerald.

Abro de novo, e como a moçoila do Nelson Rodrigues, me abano depois de ler a principal manchete. Lá está, em furo de repórter rico: “Michael Jackson é a celebridade morta mais lucrativa.” No miolo do texto, os dados relevantes. Só este ano o astro, que tão cedo se apagou deixando-nos numa noite artística, poetizo para melhor poder digerir o malogrado fato, teve um faturamento de produtos que levantou, para seus herdeiros e gestores de seu legado, perto de US$ 275 milhões.

A Forbes, que sabe das coisas, não nos deixa em dúvida: essa cifra já supera os lucros de Madonna, Jay-Z e Lady Gaga juntos. E prossegue fuçando figurativamente as contas bancárias e carteiras de notas de outros mortos célebres (falar nisso: quem é e o que quer Jay-Z?).

Lá estão, devidamente listados, Elvis Presley, em segundo lugar, que bateu as botinas em 1977. Logo depois – vejam que estranho – um escritor: J.R.R. Tolkien (1892-1973, aquele da trilogia O Senhor dos Anéis, que levantou uma nota de 50 milhões de dólares, que, não é nada não é nada, dá ao menos para quem ficou com seus direitos autorais se assenhorar não só de anéis como de bijuterias várias, inclusive um bom número desses relógios Rolex que vivem tentando me vender pela internet.

Em quarto lugar, outro que não cantava nem sacudia as cadeiras: Charles Schulz (1922-2000), aquele cara sensacional que bolava e desenhava a tira que já foi batizada por nós de Minduim, e que vocês conhecem muito bem – a turma do Charlie Brown, da Lucy e daquele cachorro genial, o Snoopy.

Depois, um músico, ou como tal tido, John Lennon, que tinha mania de parar na rua para autografar LP de fã aloprado armado. Deixando o mundo da música, mas sempre no mundo dos mortos, segue-se Yves Saint Laurent, estilista que já era, em todos os sentidos. Ou seja, liderava a lista até ano passado, quando grande parte de seu espólio foi vendida por US$ 350 milhões. Agora, babau, mon cher Yves. Vai, ou fica, com Deus.

Nosso bom e grande Ziraldo não foi chamado para os trabalhos, uma vez que tem a desvantagem de ainda estar vivo. Fica para outro ano.

Encerro os trabalhos por aqui, já que uma voz, lá no fundo, me sussurra o lugar-comum que o dinheiro é a raiz de todos os males, ao mesmo tempo que outra voz insiste em me lembrar que a inveja matou Caim. Dissonâncias a que todos estamos sujeitos graças a essa sempiterna guerra dos cifrões.