Dando nome aos boys

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Com a globalização e a multietnicidade do Reino Unido, somadas à aceleração dos costumes e tendências, as coisas vão mudando a cada dia que passa. A olhos vistos e mesmo a olhos fechados.

Tradição? Yes, sir. Era aqui mesmo. Está falando com ela. Ou estava. Não precisamos exagerar. Tradição até que é palavra forte. Costume, mania, cacoete. Por aí mesmo. Tudo mudando.

Até há alguns anos, era costume, nesta época do ano, quando ele vai estrebuchando, fazer as contas, recorrer aos préstimos do Instituto de Estatísticas Nacionais (Office for National Statitiscs) e conferir o que há e o que não há. É a síndrome do livro Guinness World Records. O Império acabou, os números prosseguem – inexoráveis.

Um exemplo que acompanho desde que aqui cheguei pela primeira vez, em 1968. Os jornais publicavam a lista dos 10 nomes mais populares, para meninos e meninas, no decorrer do ano, segundo os registros oficiais. E tome John e tome Mary.

A listagem não deixava de ser, na mente insólita dos britânicos, uma deixa para conferir como andavam as coisas. Não bastavam os 10 discos mais vendidos, ou os 10 apetrechos mais populares. Com nome a coisa é mais séria. Nome é o que se carrega a vida inteira, até a sepultura. Ou ainda, que nos – ou a eles – carrega.

Na semana passada, a oficialidade estatística anunciou os 10 vencedores para 2010. Foram devidamente arrolados 7.364 pequerruchos. Algumas novidades. Em primeiro lugar, nem John, ou sua variação, Jack, ou James, e nem mesmo Henry, também com sua variante, Harry. Findo, pois, o reinado de 14 anos de Jack, como número um.

Medalha de ouro para – vejam só – Oliver. E não se sabe, que os estatísticos não revelam, mesmo que pudessem, o porquê da opção. Cada um, de per si, que faça sua opção interior. Acho pouco provável tratar-se de homenagem ao falecido ator Oliver Reed ou mesmo ao Oliver Hardy, que conhecemos como O Gordo, da dupla com O Magro).

Uma regressão histórica a Oliver Cromwell, regicida e genocida de católicos? Pouco provável. Fica o registro: mais uma excentricidade dos ingleses. E dos galeses. Uma vez que eu ia me esquecendo do fato de que a listagem é feita valendo apenas a Inglaterra e o País de Gales.

De resto, continuam sendo batizados, ou registrados, Thomas, William e James. Os suspeitos habituais, para ficar num lugar-comum.

E as menininhas? Tudo bem, todas certinhas. Ganhou Olívia, Ruby (estranho, admitamos) pegou segundo lugar e Sophie, Grace e Jessica, bateram seus devidos e habituais pontos.

Não vamos criticar ingleses e galeses por falta de imaginação. Em hipótese alguma apresentam a variedade que nós, brasileiros, apresentaríamos, se nosso equivalente ao instituto de estatísticas fosse perder seu tempo registrando quem recebeu quais nomes. Desconfio que Cenimar e Weslian pegariam fácil uma boa classificação. Só não sei dizer em que gênero: se masculino ou feminino.

Importante foi a novidade apresentada este ano no instituto estatístico de cá. O nome que desbancou, pela primeira vez, todo mundo, inclusive o misterioso Oliver, foi – e prestem atenção – Maomé. Fosse no Brasil, não teria mais que uns poucos registros. Escrevemos e chamamos de Maomé e, pronto, acabou a história. Ponto.

Aqui, a coisa, ou o indivíduo, muda de figura, ou de ortografia, para ser mais preciso. Há pelo menos 12 maneiras de se grafar o nome do profeta muçulmano que pegou 7.549 entradas registradas para as 7.364 de Oliver. Confiram aí a variedade ortográfica do sagrado mensageiro islâmico: Mohammed, que abocanhou, que me perdoem o verbo, 3.300 registros, seguido de Muhammad (2.162), Mohammad (1.073) e um et cetera que inclui Muhammed, Mohamet, Mohamad, Mohammod, Mahamed, Muhamed, Mahammed e Mohmmed (este teve apenas 4 entradas oficiais).

Louvados sejam eles todos, não importa a grafia de seus nomes, e, por favor, virem para lá essa fatwa. Fatwa, por sinal um bom nome para menina. Quase que tão charmoso quanto Fátima.