Kama Sutra 2.0

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Um pouco tarde para mim, vem aí, em inglês, uma nova edição do Kama Sutra, o texto indiano que versa e proseia sobre o comportamento sexual humano e tido como o trabalho definitivo sobre o amor na língua sânscrita.

Desconheço outros trabalhos na língua sânscrita. Nunca me passou pela frente um único sânscrito. Conheci, de certa feita, um armênio, mas creio que isso não tem nada a ver com a história. De qualquer forma, ele se chamava Aram e contava anedota bem à beça. Nascera em São Paulo e tinha ódio quando o chamavam de “turquinho”.

Desviei-me completamente do assunto. Permitam-me, após breve consulta aos compêndios informatizados, e para os que chegaram tarde, com as luzes já apagadas e o espetáculo iniciado, esclarecer que o Kama Sutra, ao contrário do que diz e pensa muita gente boa, não é manual de sexo coisíssima alguma.

Também não é trabalho sagrado ou religioso. Tampouco constitui um texto tântrico, que, por uma questão de espaço, não vou explicar agora do que se trata. O Kama é a literatura do desejo. Uma espécie de Carlos Zéfiro milenar é muito mais pretensioso do que o nosso herói, outrora misterioso e hoje emblemático e icônico. O Sutra, a outra metade do (da?) Kama, feito a Marocas, mulher do Pafúncio, é uma série de aforismos. Para nenhum Oscar Wilde botar defeito, diga-se de passagem.

Reza e ora a tradição que a autoria do Kama Sutra, que quem juntou uma coisa a outra (sim, estamos chegando lá) foi um estudante celibatário, nascido possivelmente no século 4 de nosso calendário. A ser verdade e não lenda, o solteirão em questão (esses solteirões só pensam em sacanagem, dirão muitos), anônimo para toda a eternidade, viveu durante o ápice da Dinastia Gupta. Garantem-me que isso foi muito bom, uma verdadeira época de ouro, quase que como os nossos anos Lula, a findarem, até certo ponto, agora em dezembro.

Vamos ao que interessa. Não, não são os aforismos. É o tratado, propriamente dito, que, a rigor é um enfileiramento (já ouviram falar da “posição do trenzinho”?) de modalidades físicas a serem adotadas por dois parceiros amorosos, de preferência de sexo diferentes, no sentido de gênero e não anomalia física. Assim chegou a nós, assim fomos fuçar na biblioteca de nossos pais e avós, assim procuramos nos alfarrabistas toscas edições semi-clandestinas e caindo aos pedaços, inda que caríssimas.

Em português, que eu conheci e folheei guiado apenas pelos mais altos princípios acadêmicos, confesso que, lá pela página 14, já desandava a rir. Principalmente dos nomes dados às diversas posições e o aspecto físico dos participantes, para não falar de suas bizarras, carnavalescas mesmo, vestes utilizadas para a ocasião. Sempre me ocorreu: por que tanto roupa, meu Shiva dos céus! Isso só vai atrapalhar o bom andamento do processo.

Não sei como será a nova edição do Kama Sutra, que, no título, chamei de 2.0, pois estou cansado de ver isso empregado nas mais diversas modalidades cibernéticas e me sugere modernidade informatizada da qual quero fazer parte. No entanto, é apenas mais uma edição do que já foi, para seguidas gerações, um livro quase tão proibido e proibitivo quanto os de Henry Miller ou O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence.

A pergunta a ser feita é simples: terá alguma relevância para os jovens ou não jovens de hoje uma nova edição do Kama Sutra? Acho que não. Tenho dúvidas se pegaria ou não mesmo sob o formato de videogame. Sejamos sinceros, nós, ou eles aí, já viram e fizeram de tudo. Só se for para rir – e uso esse verbo e não “gozar” porque eu não sou besta,

Frise-se que a nova edição, além de rever o sânscrito tradicional, traz ilustrações mais condignas com o século 19 do que este em que vivemos. Isso está me cheirando é a nostalgia, a saudosismo. Posição do camelo? Do cabrito? De alguma espécie em extinção, feito o urso panda? Besteira. E besteira da grossa. Nesse não investirei o pouco dinheirinho que tenho sobrando para uma necessidade de última hora. Kama Sutra, francamente, não consta de minha lista.