Para Mantega, G20 precisa evitar 'salve-se quem puder'

Ministro da Fazenda, Guido Mantega
Image caption Mantega participa, ao lado de Lula, da reunião de cúpula do G20 em Seul, entre quinta e sexta-feira.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta quarta-feira em Seul que o G20 (grupo das 20 maiores economias do planeta) precisa tomar medidas para controlar a chamada "guerra cambial" e evitar um "salve-se quem puder" de medidas protecionistas.

Mantega participará, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da reunião de cúpula do G20 que acontece na capital sul-coreana, entre quinta e sexta-feira.

Segundo o ministro, se o G20 não adotar uma medida conjunta para evitar que países desvalorizem intencionalmente suas moedas com o intuito de beneficiar suas exportações, os demais países serão obrigados a tomar medidas protecionistas unilaterais.

"Vários países já estão tomando medidas para se defender", afirmou Mantega. "É o caso da China, que limita a entrada de dólares no país, assim como a Índia. A Coreia do Sul também está tomando medidas. No Brasil, aumentamos a taxação do investimento estrangeiro de curto prazo", elencou.

"Daqui a pouco, vamos ter medidas generalizadas de proteção", advertiu.

Estados Unidos

Mantega voltou a criticar os Estados Unidos pela decisão anunciada na semana passada pelo Fed (o Banco Central americano) de injetar US$ 600 bilhões na economia local por meio da compra de títulos públicos.

Segundo ele, ao fazerem isso, os Estados Unidos provocam a desvalorização de sua moeda e estimulam um fluxo de capitais para países emergentes, que oferecem atualmente taxas de juros mais altas do que os países desenvolvidos.

"O problema é que quando os Estados Unidos põem mais US$ 600 bilhões em circulação, isso não vai para a produção, não vai gerar empregos nem estimular o consumo interno", afirmou.

"Com mais dinheiro no mercado, os investidores vão aproveitar os juros mais altos em outros lugares, aplicar nas bolsas desses países ou investir em commodities, elevando os preços e gerando inflação em nossos países", disse. Para o ministro, uma discussão que estava "oculta" há tempos, com as principais críticas voltadas à China, que mantém uma política de câmbio fixo com o yuan atrelado ao dólar, "pegou fogo" nos últimos dias com a decisão anunciada pelo Fed.

"Essa era uma questão oculta, que procuramos revelar, mas que pegou fogo por conta da política monetária dos Estados Unidos para desvalorizar o dólar", afirmou.

Mantega foi a primeira figura de peso internacional a usar a expressão "guerra cambial" para se referir às disputas sobre as moedas, no final de setembro.

China

O ministro reconheceu que a China e outros países asiáticos também adotam medidas para evitar a valorização de suas moedas, mas afirmou que "quando são os Estados Unidos que tomam uma medida como essa, a coisa fica mais grave, porque afinal de contas, o dólar é a moeda internacional".

"O mundo tem mais de US$ 8 trilhões em reservas em dólar. É muito grave quando a maior economia do mundo adota uma medida dessas", afirmou. "Queremos evitar esse conflito, caso contrário é o salve-se quem puder."

Mantega disse que o Brasil defenderá durante a reunião de cúpula do G20 a adoção de uma cesta de moedas como nova referência para as transações internacionais. Para ele, o dólar não pode mais ser a moeda predominante.

"O volume das transações em dólar ultrapassou em muito a importância da economia americana", afirmou. "Antes a economia americana reinava no mundo, mas hoje outros países estão se aproximando."

Ele sugeriu que os DES (Direito Especial de Saque), títulos de uso limitado emitidos pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e baseados no dólar, no euro, no iene japonês e na libra britânica, tenham seu uso ampliado e passem a incorporar também o real e o yuan chinês.

'Bagunça'

Para o ministro, hoje o sistema financeiro internacional está "bagunçado".

"Com o acordo de Bretton-Woods no pós-guerra, os países tinham taxas de câmbio fixas, que só podiam ser desvalorizadas com a autorização do FMI. Hoje temos de tudo, taxas flutuantes como o real ou fixadas ao dólar, como a China. Há países que controlam o fluxo de capitais, outros que não controlam", explicou.

Para ele, "está na hora de uma homogeneidade maior". Mantega elogiou a decisão da França, país que assumirá a presidência temporária do G20 após a Coreia do Sul, de colocar a questão da reforma do sistema financeiro internacional na agenda.

Mantega disse ainda que o Brasil deve defender que os países desenvolvidos, cujas economias ainda lutam para se recuperar da crise global iniciada em 2008, estimulem seus mercados internos.

"É preciso rever as estratégias dos países, porque a retomada do crescimento não aconteceu como esperávamos", afirmou.

Para ele, alguns países desenvolvidos se precipitaram ao retirar as medidas de estímulo econômico e adotar políticas de cortes de gastos para reduzir seus déficits fiscais.

"É mais fácil diminuir o déficit depois que a economia tenha sido estimulada. A não ser que façam o controle do déficit às custas de outros países, usando mercados alheios", afirmou, em referência à medida adotada pelo Fed.

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