Irã perde disputa por vaga na Agência da Mulher na ONU

Cartazes eleitorais no Irã
Image caption Candidatura do Irã a vaga na nova agência da mulher recebeu críticas

O Irã foi derrotado nesta quarta-feira em sua tentativa de integrar uma nova agência da ONU de promoção dos direitos das mulheres, em votação na Assembleia Geral da entidade.

A derrota veio após forte oposição dos Estados Unidos e de grupos de direitos humanos, que criticaram o tratamento dispensado às mulheres no Irã, principalmente em meio à polêmica pela condenação à morte de Sakineh Ashtiani (cuja sentença ainda não foi executada).

Inicialmente, o Irã teria vaga garantida na agência, já que era um dos dez países asiáticos candidatos às dez vagas reservadas ao continente.

No entanto, o Timor Leste apresentou uma candidatura de última hora, gerando a necessidade de uma votação. Esta, por sua vez, resultou na vitória do Timor, por 36 votos, contra 19 dados ao Irã.

A Arábia Saudita foi criticada pelos mesmos motivos que o Irã, mas ganhou uma das vagas reservadas a doadores de fundos da ONU.

Críticas

Segundo a repórter da BBC na ONU Barbara Plett, a embaixadora americana no organismo, Susan Rice, não confirmou os rumores de que os Estados Unidos incentivaram o Timor Leste a se candidatar, mas se disse satisfeita com o resultado.

“Não fizemos segredo de nossa preocupação de que a entrada do Irã na ONU Mulheres seria um começo pouco propício para a agência”, disse Rice.

A americana não fez nenhuma crítica à Arábia Saudita – aliada dos EUA no Oriente Médio –, o que frustrou grupos de direitos humanos. O Human Rights Watch chegou a dizer que os sauditas “compraram” seu assento no novo órgão da ONU.

Esses grupos afirmam que tanto a Arábia Saudita quanto o Irã oferecem um tratamento indigno às mulheres, com discriminação sistemática e embasada por leis.

Na Arábia Saudita, mulheres só podem dirigir acompanhadas do marido e estão proibidas de tomar decisões importantes sem a permissão de um parente masculino.

A ativista iraniana Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz de 2003, também criticou Irã e Arábia Saudita. Na terça-feira, disse que a presença dos países em um órgão da ONU destinado às mulheres soaria como uma “piada”. “Acho que a entidade que tem membros como esses que vemos agora não chegará a lugar algum”, disse ela na sede da ONU.

Bachelet

A nova entidade, uma das prioridades da gestão do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, foi criada em julho deste ano, depois de anos de negociações entre os Estados-membros e organizações internacionais de defesa dos direitos da mulher.

A nova agência terá 41 países membros e iniciará seus trabalhos em janeiro de 2011, unificando o trabalho de quatro antigas entidades da ONU relativas aos direitos das mulheres. A ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, é a diretora-executiva da entidade.

Segundo a repórter Barbara Plett, não está claro que impacto o histórico de direitos humanos de um país terá no trabalho da nova agência, mas há temores de que o órgão se torne uma arena para batalhas políticas, já que temas relacionados às mulheres são fortemente politizados na ONU.

Colunistas em jornais árabes disseram que as pretensões da Arábia Saudita e do Irã em se tornar membros da nova agência tinham como objetivo influenciar suas futuras decisões sobre a situação das mulheres em seus territórios.

Colaborou Tariq Saleh, de Beirute para a BBC Brasil

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