Braços abertos sobre Swiebodzin

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Não sei o que Tom Jobim acharia. Meio imprevisível seu humor. Quando deram seu nome ao Galeão, tenho a certeza de que achou de uma burrice enorme.

A primeira coisa que lhe teria ocorrido seria cantarolar aquela frase musical de um de seus clássicos, o Samba doAvião: “… dentro de mais um minuto estaremos no Tom Jobim…”. Dando um gole no chopinho, diria, “Num dá, num dá mesmo.”

Ficando no mesmo avião do mesmo samba, lá está, alguns compassos antes: “…Cristo Redentor/Braços abertos sobre a Guanabara…”. Tudo bem. Nesse não mexeram, a não ser para renovar e, possivelmente, aumentar o preço do ingresso. Cartão postal é para custar caro, sim, senhor.

Nós, brasileiros, no entanto, gostamos de uma boa disputa. Gostamos até mesmo de uma má disputa. O importante, olímpicos que somos, e ainda mais o seremos em 2016, é disputar. Disputar e sair ganhando, óbvio. Não somos idiotas.

Entram aí em cena os poloneses, que até há pouco não nos interessavam nem um pouco. Não é que os danados completaram agora mesmo, no domingo dia 7, contemplando a pequena cidade de Swiebdozin, a sua estátua do Cristo, igualmente Redentor só que com coroa de ouro (folheada a ouro, ouso especular) e 33 metros de altura.

O nosso Corcovado tem 38 metros de altura. Ganha, pois, em 5 metros. Só um probleminha: desses 38 metros, 8 são do pedestal. O polonês vai na natural: seus 33 metros, sendo que cada um para um ano de sua vida, emergem de uma elevação mínima sem maiores suportes. E, torcemos nós, sem praticarmos heresias, que não vire cartão-postal ou ponto obrigatório para milhares de turistas.

O Cristo de Swiebdozin (acostumemo-nos logo a Ele, seu nome, sua visão) é o resultado em pedra, suor e concreto do reverendo Sylvester Zawadzki, indivíduo de quem desconhecemos maiores detalhes, embora podemos afirmar, no escuro, tratar-se de pessoa das mais interessantes. Podemos deduzir ainda que é devoto, patriota e amante da cidade que agora ostenta seu sonhos: a tranquila e, até agora, obscura cidade de Swiebdozin, cujo nome já começa a ganhar familiaridade em nossos lábios e digitações.

Como tudo que diz respeito à religião, a estátua do Cristo de Swiebdozin dividiu a Polônia. Muitos poloneses ficaram constrangidos com a grandiosidade do projeto do reverendo Zawadki (guardemos também seu nome) achando que tanto empenho e dinheiro (calculados em US 1, 4 milhão), melhor teriam sido empregados em projetos de fundo social. Outros apontaram para o fato de que o Cristo de Swiebdozin fica localizado em campo aberto e excessivamente próximo de um supermercado e uma autoestrada.

O mundo, assim, vai enfileirando seus Cristos. Há um em Cochabamba, na Bolívia, que, supostamente, tem 40,4 metros de altura. Os bolivianos, no entanto, apesar do governo progressista de Evo Morales, continuam a carecer de credibilidade no panorama mundial, o que é lamentável além de injusto.

Nossos avozinhos portugueses também seu Cristo-Rei, em Almada, perto de Lisboa, sobre o Tejo, mas este, embora não seja um anão, conta apenas 28 metros de altura. Não é páreo para nós, com ou sem pedestal, nem para o recém-inaugurado Cristo de Swiebdozin.

Tom Jobim, bem calibrado, com seu humor sempre inesperado, talvez até colaborasse com a cristã empreitada polonesa tirando no violão alguns compassos em homenagem a aquele que muita gente excessivamente séria já vê como desafio. Afinal, Jobim rima fácil para Swiebdozin.

Vamos ver se os poloneses agora, com essa animação toda, pegam pressão e se dispõem a, ali nos arredores mesmo, erguer um Pão de Açúcar com umas favelas em torno para enfeitar e dar cor local. Aí então, lá dar uma chegada e filmar – onde estás, Andrezj Wajda? – um Tropa deElite 1, 2 e, fôlego e imaginação sobrando, completar uma trilogia.