Lula anuncia ajuda da Vale a fábrica de remédios em Moçambique

Image caption Lula conversa com o presidente Guebuza em sua última visita à África

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou a viagem a Moçambique nesta quarta-feira visitando o local onde será instalada uma fábrica de medicamentos, resultado da parceria entre os governos brasileiro e moçambicano.

A empresa mineradora Vale anunciou que ajudará o país a levantar os US$ 5,5 milhões necessários para fazer as adaptações no local das instalações da fábrica. O valor ainda está sendo negociado, mas o presidente disse que a Vale dará US$ 4,5 milhões.

Na véspera, Lula havia dito que as empresas brasileiras não podiam exercer práticas “predatórias”em Moçambique.

“As empresas brasileiras estão aqui, e. não apenas para aproveitar o potencial de Moçambique. Elas sabem que, na filosofia do nosso governo, não podem ser predadores apenas para tirar riqueza”, disse Lula, durante brinde oferecido pelo presidente moçambicano, Armando Guebuza.

O investimento das empresas brasileiras é bem-vindo pelo governo do país, mas visto com ceticismo por organizações sociais e de direitos humanos, que criticam o que chamam de “atitude imperialista” das corporações brasileiras.

A Vale, que tem o projeto mais volumoso – a extração de carvão de Moatize, no norte do país, uma iniciativa avaliada entre US$ 1,2 bilhão e US$ 2 bilhões – é criticada pelo impacto social causado nas populações do norte.

Questões ambientais

Outra que está na berlinda é a Camargo Correa, escolhida para construir a represa de Mpanda Mkuwa, um projeto de US$ 2 bilhões que recebeu o sinal verde do governo moçambicano apesar de os estudos de impacto ambiental só ficarem prontos no ano que vem.

“Quem decide sobre a questão de políticas ambientais em um país é o país, não é o Brasil que de fora vai dizer. Respeito é bom, nós damos e gostamos de receber. Portanto, Moçambique define o que é a política ideal para a questão dos investimentos brasileiros aqui”, despistou.

Questionado se havia lido ou tomado conhecimento de alguma crítica em particular, Lula foi vago.

"Não tinha lido, apenas intuição. É que quando a gente anda muito, a gente fica sabendo o que acontece em todo lugar e nem precisa ler o jornal para saber o que é que acontece.”

Mais cedo, o presidente anunciou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberou US$ 80 milhões em financiamentos para beneficiar as exportações brasileiras destinadas às obras do corredor de Nacala, onde estão projetos importantes das empresas brasileiras.

No total, Lula disse que o BNDES deve liberar US$ 300 milhões em financiamentos semelhantes para Moçambique.

Fábrica de medicamentos

O projeto total da fábrica de medicamentos é de US$ 31 milhões, dos quais US$ 21 milhões caberão ao Brasil. No ano passado, o Congresso Nacional aprovou a liberação de R$ 13,6 milhões para comprar os equipamentos.

O restante do dinheiro será usado no treinamento da mão-de-obra moçambicana e nos custos operacionais da iniciativa, e já inclui o valor do registro de 21 medicamentos – inclusive cinco usados no coquetel anti-Aids – que serão feitos em Moçambique livres de royalties.

Será a primeira fábrica de remédios de Moçambique e o primeiro laboratório público de toda a região do sul da África.

O projeto é uma espécie de menina-dos-olhos da relação Brasil-Moçambique e, quando entrar em operação, uma das iniciativas mais concretas da atuação brasileira no continente africano.

“Da parte do Brasil, todos os equipamentos já estão comprados e nós esperamos em 2012 estar produzindo remédios aqui para vender para quem precisa”, disse a jornalistas em Maputo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ele acrescentou que, “se for necessário, o Brasil comprará o excedente para tornar a fábrica competitiva”.

As instalações ficam ao lado de onde hoje funciona outra fábrica de soro fisiológico, nos arredores de Maputo. Em uma primeira fase, a fábrica apenas embalará os comprimidos, que no futuro deverão ser feitos totalmente em Moçambique.

Quando isso acontecer, a produção pode atender às demandas do país – que hoje gasta cerca de US$ 70 milhões importando remédios – ou ser vendida para outros países da região da África Austral.

O presidente Lula citou estatísticas para mostrar a necessidade de Moçambique por medicamentos de combate à Aids. “No Brasil, nós distribuímos remédios para 138 mil pessoas. Aqui em Moçambique tem 400 mil pessoas sem remédio”, citou o presidente.

Segundo a OMS, a prevalência do vírus HIV em Moçambique é de cerca de 12,5% da população entre 15 e 49 anos. Na capital, Maputo, esse índice é mais alto, e em algumas regiões do país a contaminação chega a 23%.

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