G20 tenta acordo para aliviar tensões na 'guerra cambial'

Centro onde ocorrem encontros do G20 em Seul
Image caption Poucos creem em acordo para conflito cambial, mas espera-se medida de distensão

Após as declarações fortes dos últimos dias, os líderes das 20 principais economias do planeta tentam nesta sexta-feira chegar a um acordo durante a cúpula do G20 em Seul, na Coreia do Sul, para tentar reduzir as tensões na chamada "guerra cambial" deflagrada nas últimas semanas.

A disputa em torno das supostas ações de países para desvalorizar suas moedas e favorecer suas exportações ganhou força na última semana, com o anúncio do Fed (o Banco Central americano), de injetar US$ 600 bilhões na economia local para estimular o crescimento.

A China, que até então era o alvo principal das críticas internacionais, por manter sua taxa de câmbio controlada e ligada ao dólar, passou então a criticar a medida dos Estados Unidos, que pode ter o efeito de desvalorizar o dólar e, com isso, também a maior parte das reservas internacionais, mantidas na moeda americana.

Na quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que não poderia comentar as ações do Fed, órgão que tem autonomia, mas disse que sua orientação à equipe econômica americana é "se concentrar a cada dia em como fazer crescer a nossa economia" e com isso impulsionar também a economia global.

"É difícil fazer isso se começarmos a ver novamente as grandes diferenças que contribuíram para a crise pela qual passamos (referência à crise econômica global iniciada em 2008)", afirmou Obama.

Numa entrevista concedida na noite de quinta-feira, pouco antes do jantar oficial de abertura da cúpula, no Museu Nacional da Coreia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar a medida americana e disse que os Estados Unidos deveriam pensar nas consequências de suas ações para os demais países, incluindo os que não estão representados no G20 e que são as economias mais pobres e mais frágeis.

Pela manhã, a presidente eleita Dilma Rousseff, que acompanha Lula no encontro em Seul, já havia dito considerar a medida americana uma "desvalorização disfarçada", que "joga a conta do ajuste americano nos outros países".

Países com câmbio flutuante, como o Brasil, temem que sem uma política americana de investimentos e incentivo ao consumo interno, o excesso de dólares no mercado local acabe gerando um fluxo de divisas para os países emergentes, em busca de rendimentos mais atraentes e juros mais altos, valorizando as moedas destas nações e gerando pressões inflacionárias.

Pressão

Em um encontro privado com Obama na quinta-feira em Seul, o presidente da China, Hu Jintao, resistiu às pressões americanas para que valorize o yuan, a moeda chinesa, e afirmou que o regime cambial chinês será flexibilizado, mas de acordo com as condições do ambiente econômico global.

Segundo a imprensa chinesa, Hu também teria pedido a Obama que considerasse os interesses de outros mercados emergentes.

Em uma entrevista coletiva aos jornalistas em Seul, o diretor-geral do Departamento Internacional do Ministério das Finanças chinês, Zheng Xiaosong, afirmou que os Estados Unidos, "os maiores emissores de moeda de reserva, ao implementarem suas políticas monetárias, deveriam levar em consideração também os possíveis impactos sobre a economia global".

Em uma entrevista à BBC, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, que foi subsecretário de Estado americano e representante de Comércio no governo George W. Bush (2001-2009), também afirmou que a medida americana ajudou a elevar as tensões.

"É preciso estar atento às tensões, porque não se quer que (os países) adotem o protecionismo (adoção de barreiras comerciais para evitar a entrada de produtos americanos mais baratos por conta do dólar mais baixo)", afirmou Zoellick.

Entendimento

Poucos esperam um acordo definitivo na reunião de cúpula em Seul para eliminar de vez o conflito cambial, mas muitos diplomatas veem sinais de um possível entendimento por uma resolução que possa aliviar um pouco a tensão.

O provável acordo a ser firmado na cúpula deverá repetir em parte o que já havia sido proposto no mês passado durante a reunião entre ministros das Finanças e presidentes de Bancos Centrais do G20, também na Coreia do Sul.

Naquela reunião, houve um acordo para que os países evitassem medidas que pudessem ser consideradas manipulações cambiais. Para muitos, porém, a medida do Fed violou esse acordo.

A resolução deve pedir ainda esforços para que se diminuam as diferenças entre os grandes superávits comerciais de países exportadores e os déficits de importadores, mas não devem ser aprovados limites numéricos como desejavam os Estados Unidos.

Também não se espera uma solução definitiva para o problema do câmbio controlado chinês nem uma condenação explícita à política monetária americana.

Outro ponto em que não deve haver avanços é em relação à troca do dólar como moeda de referência nas transações internacionais para uma cesta de moedas, que poderia incluir, além do dólar, o euro, o iene japonês, a libra britânica (e, como querem Brasil e China, também o real e o yuan).

A proposta de abandono do dólar vem sendo sugerida há tempos pelos países emergentes, mas até hoje nunca chegou a ser nem mesmo considerada em qualquer fórum de discussão internacional.

Muitos esperam, porém, que o tema possa ser discutido nos próximos meses, após a decisão da França, que assume a presidência temporária do G20 após a cúpula de Seul, de colocar na agenda a reforma do sistema financeiro mundial.

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