G20 não é 'cada um por si e Deus por todos', diz Lula

Presidente critica medidas unilaterais que afetem várias economias. Foto: Firdia Lisnawati/AP
Image caption Lula vai a reunião com ministro da Fazenda, Guido Mantega (esquerda).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira em Seul, pouco antes do início oficial da cúpula do G20 (o grupo das 20 maiores economias do mundo), que a reunião precisa debater soluções para evitar medidas unilaterais de países que afetem as demais economias.

"O G20 não é para cada um se salvar, não é cada um por si e Deus por todos, é todos por todos e Deus por todos", afirmou o presidente. "Somente assim é que vai dar certo."

Em referência à decisão do Fed (o Banco Central americano) de injetar US$ 600 bilhões na economia local, anunciada na semana passada, Lula afirmou que, "num mundo globalizado e cada vez mais interdependente, não podemos mais deixar que um país tome uma decisão unilateral sem pensar nas consequências para os demais países".

A decisão americana gerou protestos de vários países, que temem uma provável desvalorização do dólar como consequência do aumento da oferta de dinheiro na economia, favorecendo as exportações americanas em detrimento dos demais países.

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Os países emergentes, como o Brasil, temem também que o excesso de dólares acabe inflando o fluxo de capitais em busca de retornos maiores para investimentos nos países em desenvolvimento, provocando a valorização das moedas desses países e gerando pressões inflacionárias.

Protecionismo

Para Lula, se não forem tomadas medidas para conter a chamada "guerra cambial", o mundo "voltará à velha política do protecionismo, que não ajudou em nenhum momento a nenhum país."

A frase é uma referência ao pós-crise dos anos 1930, quando vários países fecharam seus mercados em reação a desvalorizações competitivas de outros países para beneficiar suas exportações.

Para Lula, a questão não é somente uma disputa entre os países que fazem parte do G20. "Todo mundo quer continuar crescendo e exportando mais, mas temos que discutir sobre as consequências de nossas políticas para os demais países", afirmou.

"Não podemos, num encontro das maiores economias do mundo, tomar decisões pensando só em nós do G20, sem pensar nos reflexos nos outros países, incluindo os que não estão aqui, que são os menores, de economias mais frágeis", disse Lula.

Para Lula, os países desenvolvidos, que ainda sofrem para superar a crise econômica global iniciada em 2008, deveriam seguir o exemplo dos países em desenvolvimento, como o Brasil, que mantiveram o crescimento econômico com uma política de investimentos, criação de empregos e estímulo ao consumo.

"Vocês estão lembrados que fui à televisão pedir para o povo comprar, porque se não comprasse aí sim iam perder o emprego e a economia ia ficar ruim", disse Lula.

Segundo ele, de um lado há os países emergentes como o Brasil, que superaram a crise estimulando o consumo, e os países ricos de outro, que adotaram medidas como cortes de gastos que têm o efeito de conter o consumo interno.

"Se os países mais ricos não estão consumindo a contento, o mundo vai à falência. Se todo mundo quiser só vender, não quiser comprar, como é que vai ficar o Ceará?", disse Lula, em tom de brincadeira.

Possível pressão sobre os EUA

Questionado se pressionaria os Estados Unidos durante a reunião de cúpula por conta da medida adotada na semana passada, Lula disse que "essas coisas não funcionam assim".

"Os Estados Unidos tomaram medidas em função da realidade da economia americana, então vamos respeitar isso, mas vamos também chamá-los à responsabilidade sobre o impacto que isso tem sobre outras economias", afirmou.

Para Lula, uma das possíveis soluções para a crise seria a adoção de novas referências para as reservas e as trocas internacionais no lugar do dólar.

"Desde o ano passado estamos discutindo com vários países, sobretudo com os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), a possibilidade de fazermos comércio nas nossas moedas, sem precisar ter o dólar como moeda intermediária, mas na prática as pessoas estão há tanto tempo acostumadas a trabalhar com o dólar que têm medo de mudar", disse.

"É preciso tomar cuidado, porque, toda vez que falamos isso, os americanos ficam preocupados, como ficaram quando criaram o euro, que achavam que era uma moeda para substituir o dólar ou quando propusemos a necessidade de trocas entre Brasil e Argentina nas nossas moedas", afirmou o presidente.

Para Lula, porém, o dólar não pode ser mais a única moeda de referência "se é feito por um único país". "É preciso que haja outras referências, até porque países que tem altas reservas, como o Brasil ou a China, ficamos dependentes da política de um país de valorizar ou não nossas reservas", disse.

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