Z20

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Este G20 vai dar zebrinha. O zebrão vem depois. O cenário mundial é sombrio, culpa da economia que galopou sem freios durante quatro décadas e caiu do cavalo em setembro de 2008.

Os americanos derramam dólares contra uma japonização, a Europa se arrasta, mas não sai da crise. Gregos, portugueses, espanhóis e irlandeses se revezam nos choques.

A geopolítica é pior. Estados Unidos e China estão em curso de colisão.

Na década de 90, o capitalismo de mercado parecia imbatível, com mais privatizações, menos regulamentação e bancos e investidoras correndo com rédeas soltas. Agora estamos na década do capitalismo estatal com nacionalizações e mercados contidos. Uma guerra entre Estados e corporações.

Aqui você pode perguntar: o que este colunista entende de economia e geopolítica?

Quase nada, mas converso com gente que entende, como o Ian Bremmer. Ele tem 41 anos e aos 25 já pontificava num dos mais respeitáveis think tanks americanos. Escreveu vários livros, entre eles, dois best sellers, The J Curve, sobre transições de regimes e impérios e, mais recente, The End of the Free Market, sobre a guerra entre o capitalismo de mercado e o estatal.

Tinha 27 anos e US$ 25 mil no banco quando convenceu dezenas de clientes de que informação política é fundamental para negócios e que deviam comprar os serviços da empresa dele, a Eurasia. Hoje, 140 PhDs trabalham para ele e analisam riscos de países.

Bremmer é uma combinação de enciclopedista e futurólogo. Você dá o nome de um país ou de um problema e ele dispara com precisão de dados e fartura de argumentos.

Tem mestrado e doutorado em ciências políticas da Stanford University, na Califórnia, e dá aulas na Columbia, em Nova York, "mas, por favor, não me chame de professor".

"Mr. Bremmer?"

"Não. Ian está ótimo."

E foi Ian durante uma entrevista para o programa Milênio, que resumo aqui.

"O G20 não cria mais crescimento global. Há muito mais conflito neste grupo do que no G7 em comércio, câmbio, clima. Não há cooperação. Nos próximos cinco anos vamos ver conflitos entre economias estatais e empresas. Vamos sentir falta de uma autoridade global."

"E a China?"

"Por mais quanto tempo a China vai sustentar o crescimento na base do decreto? Cinco anos? Fácil, 10? 15? A mão de obra barata da China é uma das maiores bolhas da história. Cresce a 9.6% ao ano. Os Estados Unidos tem 9.6% de desemprego. Coincidência? São péssimos números."

"No começo deste ano você colocou o Brasil entre os países de risco para 2010 depois fez uma revisão da sua análise. Por quê?"

"Eu disse que Dilma ia ganhar as eleições porque o presidente Lula podia eleger quem ele quisesse e ela iria favorecer uma economia estatal mais forte do que Lula. Isto geraria riscos, mas o capitalismo de mercado está vencendo a guerra no Brasil. O país tem leis e transparência, um emergente que está fazendo reformas com um mercado bem regulamentado, mas leva tempo criar infraestrutura e educar um povo."

"Ahmadinejad? Chávez? Fidel?"

"Bobagem. Lula queria um lugar ao sol no cenário mundial e usou uma voz de esquerda, mas o Brasil não fez nada de importante com o Irã nem joga bola com os venezuelanos ou bolivianos. O Brasil joga bem com os americanos e é a verdadeira história do país emergente na América Latina.

"Se tivesse dinheiro entregaria a dona Dilma, mas e aquele cenário sombrio do começo da conversa?"

"O G20 não é o G7, onde o todos os líderes mundiais estavam de acordo. O mundo mudou. Não vamos ter uma 'guerra quente' com mísseis e porta-aviões, mas as duas maiores economias são adversárias. Vai ser uma guerra de espionagem industrial, ataques cibernéticos, comerciais e cambiais. Vamos crescer menos com mais terror."

"Para um homem que vive de previsões e antecipa riscos e possibilidades, qual foi o evento que o pegou de surpresa em 2010?"

"O ataque da Coreia do Norte ao navio da Coreia do Sul."