Europa

Brasileira conta em livro convivência com americana condenada por crime que chocou a Itália

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Um livro de uma brasileira condenada na Itália sob a acusação de exploração da prostituição ganhou destaque no país ao contar sua convivência no cárcere com uma das mais famosas detentas em prisões italianas: a americana Amanda Knox.

Amanda e o namorado, o italiano Rafaelle Sollecito, foram condenados no ano passado a 26 e 25 anos de prisão, respectivamente, pelo assassinato da britânica Meredith Kercher, com quem a americana dividia uma casa na cidade de Perúgia (centro do país), em novembro de 2007.

No livro Passeggiando con Amanda (“Passeando com Amanda”, em tradução literal), a brasileira Florisbela Inocêncio de Jesus, de 58 anos, conta como a universitária americana recebia um tratamento diferenciado das outras presas, graças, ela acredita, à atração que os agentes penitenciários do sexo masculino sentiam por ela.

“Num certo sentido, ela tinha um tratamento privilegiado, recebia a visita de parlamentares, e os agentes penitenciários, homens, tinham uma atração por ela. Dava para perceber as diferenças de comportamento com as prisioneiras comuns e com Amanda”, afirmou Florisbela, em entrevista à BBC Brasil.

A brasileira - que passou pouco mais de um ano na prisão - conviveu com Amanda Knox durante parte do seu período na cadeia e durante as transferências entre as penitenciárias de Lecce (sul da Itália) e de Perúgia, cidade-sede dos processos de ambas na Justiça.

“Amanda me impressionou muito, tinha um comportamento diferente das outras prisioneiras. Ela é muito culta. Ela é a responsável pela entrega das compras, pelas anotações de pedidos extras, muito competente no trabalho”, contou.

“No começo, quando eu a conheci, era mais sofrida, mais triste, mais isolada, porque as outras prisioneiras davam a ela uma espécie de ‘gelo’, talvez por inveja. Mas depois eu notei que ela crescia interiormente, mais madura, mais segura de si, mais alegre”, relatou Florisbela.

Livros e vestidos

A brasileira disse que Amanda contava com orgulho que seu armário tinha mais livros do que vestidos. “Ela é muito bonita e inteligente”, observa.

Florisbela Inocêncio de Jesus (foto: Guilherme Aquino / BBC Brasil)

Florisbela denunciou no livro as más condições nas prisões italianas

“Nos encontrávamos todos os dias, das 9h às 10h da manhã, quando ela passava de cela em cela, depois das 10h ao meio-dia no pátio da recreação, e de tarde também. Falávamos de livros, fazíamos ginástica juntas... Ela me perguntou que tipo de livros eu queria, pois gostaria de me emprestar alguns”, revelou Florisbela.

Sobre o crime pelo qual a americana foi condenada, Florisbela não fez comentários. “Nunca falamos dos motivos que nos levaram para a cadeia. Esta é uma regra básica da cadeia”, explicou.

O assassinato de Meredith Kercher ainda gera grande cobertura na mídia e divide a opinião pública na Itália, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. “Duvido que se ela não fosse americana a mídia teria dado toda a atenção que deu”, disse a brasileira.

Uma audiência de apelação contra a condenação de Amanda está marcada para o dia 24 de novembro.

Denúncia

A casa dividida por Amanda e Meredith em Perúgia ficava a poucos quilômetros de outra, alugado por Florisbela a outras seis estudantes estrangeiras.

A mãe de uma das inquilinas, da Romênia, denunciou a brasileira como cafetina, em fevereiro de 2009, acusação pela qual a brasileira seria presa.

“Na época prenderam muitos brasileiros por quase nada, acho que era devido ao caso Battisti (o italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos na Itália e refugiado no Brasil, onde pediu asilo)”, disse Florisbela.

“Na minha primeira audiência, a juíza italiana disse que o meu governo não se comportava bem (o governo brasileiro vem adiando uma decisão sobre o pedido italiano de extradição de Battisti)”, contou. “Eu respondi que eu estava de acordo com o meu governo e ali vi que tinha assinado a minha condenação”, diz a brasileira, que tem cidadania italiana por ser casada com um agricultor do país há 30 anos.

Condições carcerárias

O livro de Florisbela, cuja publicação ela bancou sozinha por falta de interesse das editoras italianas, usa a convivência com a presa famosa como gancho para tratar das condições carcerárias no país.

Ao longo das páginas, ela critica a Justiça italiana, o sistema carcerário, as más condições de higiene, o descaso com a maternidade na prisão, o abuso de remédios psiquiátricos pelas presas, a discriminação, o racismo, o abandono, a falta de informação e o excesso de burocracia.

A ex-normalista da cidade de Mimoso do Sul, no sul do Espírito Santo, deixou a cadeia em Lecce há oito meses.

Amanda Knox

Amanda Knox aguarda audiência de apelação no dia 24 de novembro

“Fui parar na cadeia por um crime que não cometi e ainda mais por um crime pelo qual quase ninguém é preso aqui neste país. Basta ver o que acontece no governo”, protesta, referindo-se às recentes denúncias sobre os escândalos sexuais envolvendo o primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

A experiência relatada no livro de cem páginas acabou sendo premiada em um concurso literário promovido pela associação Il Borgo onlus.

“Eu quis escrever estes contos para manter alto o moral das presidiárias de Lecce e Perúgia”, escreveu ela na abertura do livro.

“Me jogaram na prisão de Lecce, lá aonde termina a Itália, a 1,2 mil quilômetros de casa, quando a lei garante uma distância no máximo de cem quilômetros, e num departamento de segurança máxima, com mafiosos, gente que derreteu vítimas com ácido. E por isso irei processar o Estado italiano, porque o crime pelo qual fui condenada era comum, eu não podia ficar ali”, afirma.

Após trinta anos de Itália, um casamento, dois filhos e uma temporada na prisão, Florisbela Inocêncio de Jesus pensa em fazer as malas e voltar ao Brasil para ajudar comunidades pobres em Alagoas.

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