Ásia

Rara praga de ratos destrói colheitas no sudeste asiático

Foto: University of Greenwich

O governo paga por cada cauda de rato em Mianmar

O governo paga por cada cauda de rato em Mianmar

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Um peste de ratos que ocorre uma vez a cada 50 anos está devastando plantações no sudeste da Ásia, provocando fome em muitas regiões.

Pesquisas confirmaram que a explosão da população de roedores é causada pela abundância de alimentos, em particular de uma semente de bambu.

Segundo cientistas, o fenômeno é um exemplo de como a simples relação entre duas espécies – uma vegetal e um pequeno roedor – pode virar toda a ecologia de pernas para o ar e destruir a agricultura.

Os pesquisadores também advertiram que as mudanças climáticas poderão propiciar o surgimento de uma população de ratos ainda maior no futuro, agravando o problema.

Rara ocasião

Florestas da espécie de bambu Melcocanna baccifera cobrem mais de 26 mil quilômetros quadrados no nordeste da Índia, se estendendo até Mianmar e Bangladesh.

Delas, os agricultores extraem material usado na construção, no vestuário e até na alimentação das populações locais.

A espécie, inestimável para os humanos, aniquilou outras espécies “competidoras” na região e transformou toda a área em uma espécie de “carpete” de florestas.

A questão é que, aproximadamente a cada de 50 anos, o ciclo de vida do bambu chega ao fim e esse carpete morre. Independentemente das condições ambientais da época, algo no relógio biológico da espécie avisa à planta que é hora de florescer, lançar sementes e morrer.

"Quando as sementes de bambu caem, o que sobra são 80 toneladas de sementes por hectare", explica o ecologista da Universidade de Greenwich, em Londres, Steve Belmain.

"Ou seja, são 80 toneladas de alimentos no chão, esperando para serem consumidas."

Belmain diz que a mais recente fase de florescimento das plantas, que começou em 2004 e deve continuar até 2011, é uma oportunidade única de estudar um evento que ocorre geralmente uma vez em cada século.

"Antes disso, tudo o que tínhamos eram os relatos de 50 anos atrás", disse o pesquisador à BBC.

"Eles tinham se tornado lenda, porque muita gente que hoje vive na região nem estava viva na última ocasião. São muitas as histórias fantásticas que dificultam a separação entre realidade e ficção."

Prejuízos

Para os fazendeiros da região, o maior problema é que as plantações de arroz ficam especialmente vulneráveis às pestes durante este período.

Belmain diz que, quando os ratos chegam, muitos agricultores nem se dão ao trabalho de fazer o plantio. Apenas aceitam a realidade.

Foto: University of Greenwich

O pesquisador Steve Belmain pesquisou o 'exércitos de ratos'

O pesquisador Steve Belmain pesquisou o 'exércitos de ratos'

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Em um livro recém-editado, o pesquisador e seu colega Grant Singleton, do Instituto Internacional de Pesquisas do Arroz em Manila, nas Filipinas, expõem as conclusões de uma equipe de cientistas que estuda a ecologia da região e as práticas agrícolas locais.

A obra, em inglês, se chama Rodent outbreaks - Ecology and impacts ("Pragas de Roedores – Ecologia e Impactos", em tradução livre).

Singleton contou à BBC que, além da fome generalizada, as pestes de ratos viram toda a ecologia florestal "de pernas para o ar".

"Há um impacto enorme também sobre os insetos e a vida selvagem. Habitats e alimentos simplesmente desaparecem."

Em Mianmar, a chegada do ciclone Nargis, que deixou 140 mil mortos em maio de 2008, inclusive piorou o problema.

Áreas que normalmente seriam plantadas foram abandonadas, cobertas de mato que fornece condições para a proliferação dos ratos. Predadores dos roedores, como as serpentes, desapareceram, deixando o caminho livre para eles.

À medida que a produção de arroz foi sendo retomada, aos poucos, mais e mais alimentos eram colocados à disposição dos ratos em diferentes épocas do ano. Os animais se alimentaram por períodos mais prolongados e se reproduziram ainda mais.

Entre junho e setembro de 2009, campanhas nas comunidades do Delta do Rio Irrawaddy resultaram na captura de mais de 2,6 milhões de ratos em Mianmar.

"Epidemias dessa magnitude não eram registradas há 30 anos no delta", disse Belmain à BBC.

Os cientistas creem que as pragas de roedores na esteira dos fenômenos meteorológicos extremos devem se tornar mais comuns em conseqüência do aquecimento global.

Solução

Os ataques não são realizados por apenas de uma espécie de ratos. Uma das mais comuns é a Bandicota savilei, nativa do Delta do Irrawaddy.

Ratos podem dar cria a cada três semanas, e um filhote de roedor atinge a maturidade sexual em apenas 50 ou 60 dias.

Para os pesquisadores, o problema não tem solução fácil.

"A maioria dos métodos usados para o controle das pestes simplesmente não funciona. Na Índia, a maioria dos produtores apenas compra um punhado de veneno no mercado e polvilha a terra."

Os pesquisadores querem ensinar os agricultores locais a instalar ratoeiras eficientes no momento certo para evitar a perda de alimentos.

Outra solução poderia ser a instalação de cercas de plástico com buracos levando para ratoeiras.

Além dos ratos, outro inimigo que os fazendeiros precisam vencer é a apatia, ele diz.

"Os fazendeiros estão imersos em apatia, porque já tentaram controlar as pestes e fracassaram. É preciso segurar a mão deles e mostrá-los como as coisas podem melhorar."

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