O IBF: Índice Britânico de Felicidade

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Maria Antonieta deveria ter pensado nisso antes de sugerir que o povão comesse brioche (ela nunca falou em bolo), já que não havia pão. Teria mantido a cabecinha oca no lugarzinho certo. Ao menos por mais uns tempinhos.

Peguemos, ou pego eu, e de beiradinha, a Grã-Bretanha de hoje. Inflação, cortes nos gastos, aumentos, descontentamento geral, protestos nas ruas, governo impopular. Não é o caso do Joe Big People ir nem de brioche nem de pão.

Tampouco de começarem a cantar nas ruas uma versão do Ça Ira. Vira pra lá essa guilhotina, mérmão. Basta sorrirem um pouco e levar as coisas mais de mansinho. Vem Olimpíada aí, virá Mundial de Futebol. Muito melhor que chá com torradas, ou mesmo brioche, convenhamos.

O primeiro-ministro David Cameron, na segunda-feira passada, anunciou que já tomara as primeiras providências no sentido de auferir o bem-estar psicológico e ambiental do povo britânico. Seria, assim, o Reino Unido a primeira nação do mundo a usar esse critério. Uma inovação. Demagógica, segundo a oposição; perigosa, de acordo com a situação.

Melhor, sugeriram almas mais tímidas, ficarmos com os índices usuais: produto interno bruto, expectativa de vida, por aí. O trivial ligeiro de sempre. O parceiro de David Cameron na condução dos destinos, felizes ou infelizes, do país, o vice-líder liberal-democrata Nick Glegg, não opinou, uma vez que andou opinando mal ainda recentemente, quando abertamente voltou atrás em sua promessa eleitoral de não aumentar os custos do ensino.

A França e o Canadá, mal souberam da medida, acharam uma boa e botaram imediatamente (ou mandaram, pois ser líder tem suas felizes vantagens) uma turma para encontrar uma medida semelhante. Sabem, pois não são bobos, que é sempre saudável para o poder não contar com as medidas convencionais econômicas para medir a prosperidade.

Também não basta ficar repetindo feito tias caducas que “dinheiro não compra felicidade”. Compra, sim, senhor. Basta que me passem uns cobres que de minhas compras me encarrego eu, replico no meu melhor sotaque carioca ou paulistês (ambos cada vez mais fracativos).

No dia 25 deste mês, o governo britânico pedirá à estatística independente, Jill Matheson, organizar em forma de questionário as perguntas relevantes. O questionário, uma vez pronto, será impresso e distribuído por todo o país e seus habitantes. Que deverão preenchê-lo devidamente, embora não haja infelizes riscos de prisão ou multa.

Prefiro não fazer previsões. Olho a expressão das pessoas nas ruas e no metrô e mergulho de novo no meu jornal. Sinto sempre – deve ser paranoia que vem com a idade e o exílio – que, com sorte, vai sair o maior pau. Com azar (toque, toque, toque), homem-bomba. Mas isso sou eu, zero à esquerda de quem desembarca em Heathrow ou Gatwick.

Uma coisinha só. Que fique patente, e bem patente, altíssimamente patente, que o premiê David Cameron é um homem de sorte. 24 horas depois de divulgada sua feliz (?) iniciativa, o jovem casal William Windsor e Kate Middldeton, ele o segundo na linha sucessória ao trono, ela plebeia, anunciaram, para grande euforia da mídia, seu casamento no ano que vem.

Há gente (possivelmente no meu vagão do metrô) reclamando do dinheirão que se vai gastar à toa. Há gente (talvez no outro vagão) explicando pacientemente para algum mal-humorado (infeliz?) companheiro do lado que essa história vai dar um dinheirão. Em turismo e venda de canecas, pratos e bugigangas mil.

Semana passada, num jornal francamente monarquista, lá estava o argumento irrespondível (feliz?) de que, em 1981, quando do enlace (os reais não se casam, se enlaçam) Charles e Diana, as despesas, que ficaram por conta do contribuinte, chegaram a 25 milhões de libras, mas que entraram no país, só em Londres, 250 milhões de libras, só em hospedagem, restaurantes e, claro, as famigeradas vendas das tais quinquilharias já mencionadas.

Antes que se divulgue ainda mais a manchete “O Príncipe e a Plebeia”, que já começou a encher em menos de um dia, esclareça-se que Kate, cujos pais vendem pelo correio brinquedos e também organizam festas, já está usando no dedinho certo o anel de safira azul que pertenceu a Diana, Princesa de Gales.

Tudo indica, infelizmente, que não dá sorte. Agora, é esperar por 2011 e ver se a alegria daquela que já foi chamada de “a plebe rude” mantém-se num nível de digno de figurar no alto do – aguardem, que ele vem aí! – Índice Britânico de Felicidade.