Vestido (e anel) de noiva

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Aqui no Reino Unido não se fala de outra coisa. Mineiro neozelandês soterrado, Irlanda em crise, Papa endossando uso parcial (não vamos entrar em detalhes, que é chato) de camisinha, heroína em falta, cocaína em excesso, desemprego, déficit orçamentário, recessão, o blablablá de sempre. É pau puro, conforme se dizia, nos tempos em que havia um e outro.

De que se fala? Ora, ora. Do casamento real marcado para o ano que vem. Príncipe William versus ( vou logo prevendo) Kate Middleton. O príncipe e a plebéia. Com acento mesmo, já que ele nada tem a ver com as papalvices de nossas "reformas ortográficas".

Olhem bem para ela: bem apanhada e sem sombra de um acento a lhe conspurcar a condição aqui chamada de commoner, que nada tem demais e, diante de todas as platéias (peguem mais acento que é para tomarem vergonha) de todos os tempos, jamais teve um bando de visigodos a tentar "reformar" coisíssima alguma.

Principalmente a língua. Uma língua rica, conversando ou escrevendo, todo povaréu de fala inglesa: americanos, australianos, neozelandeses, minando ou se soterrando. Eles se entendem. Nunca, em tempo algum, se pensou em reformar o legado do Bardo Imortal e outros mais mortais.

Afastei-me, e de propósito, do assunto em pauta. Agora, discute-se se o príncipe (com acento) e sua noiva (sem acento) Kate Middleton deveriam ser os próximos reis britânicos em lugar do herdeiro ao trono, o príncipe Charles e sua esposa, Camilla, a duquesa de Cornualha.

Ao que parece 64% das pessoas preferem a ascensão de William ao trono, ora ocupado por sua avó, a rainha Elizabeth, de 84 anos. O público pode escolher quem é que vai ou não vai para o trono nesses programas terríveis de calouros (há um brasileiro resistindo na reta final, o que é deprimente paca), de resto é dar palpite para tabloide vagabundo tacar na primeira página. Falam mal da monarquia nesta democracia parlamentar, mas que vende jornal, lá isso vende.

Os nubentes – olhem bem, podem ser mais nubentes? – conquistaram a mídia. O que qualquer vagabundo que marca dois gols num jogo de futebol de primeira divisão conquista. Há um papo no ar de que o príncipe, com seus 28 anos, mesma idade da – ai! – nubente, revitalizaria a monarquia. Tolice da grossa. Basta a monarquia fazer o mínimo de besteira, coisa meio dura para ela, que o Reino Unido se reúne em torno dela.

O importante é desfraldar bandeira e vender muito prato, tigela, caneca e, se ainda os houver, penico com reais fotografias coloridas à mão. Sangue azul, mesmo não derramado, fotografa bem à beça.

Não se aguenta mais, e olha que mal tem dez dias, fotos do casal e, principalmente, do anel de safira azul (gemólogos não têm mais dedos a medir) que foi de Diana, princesa de Gales (essa personagem, tal de “princesa Diana”, oficialmente inexiste), e que, não entendo porque, ninguém ainda berrou o equivalente àquela história de que o rei estava nu.

O anel foi da mãe do rapaz e, como bom botafoguense e macumbeiro, sei do que estou falando: o danado dá azar. Joguem no Canal da Mancha e contem com um pescador francês para apanhar um peixe que o tenha engolido para seguir em frente com outras histórias de fadas.

Mas ao vestido da moça. Azulão e companheiro. Viva o Brasil! Exclamo três vez com meus botões, minha bengala e para a gata que me olha assustada. O vestido que Kate – pronto, peguei intimidade – usava nas primeiras fotos oficiais foi obra da fértil imaginação da estilista brasileira (Viva o Brasil!) Daniela Issa, originalmente de Niterói, que eu escreveria Nictheroy, e que já bolou coisas para commoners nada comuns como Madonna, Sharon Stone (estás por fora, hein, boneca?) e Kate Moss.

Trata-se do que no metiê é chamado um wrap. Está esgotado e custa pouco mais de R$ 1 mil. Todo mundo está copiando. Aquele comandante do filme Tropa de Elite 2, ora comandando tremendo sucesso, já encomendou 3. Anel de safira? Não se sabe. Os gemólogos fazem boca de siri. Mesmo assim, insisto: Viva o Brasil! Viva o Brasil! Viva o Brasil.