Irmandade Muçulmana não consegue eleger representantes para o Parlamento egípcio

Image caption Protestos de partidários da Irmandade Muçulmana no Cairo: derrota nas urnas

A Comissão Eleitoral do Egito divulgou nesta quarta-feira os resultados oficiais das eleições legislativas do país, confirmando que o principal grupo de oposição, a Irmandade Muçulmana, não conseguiu sequer uma só cadeira no Parlamento. O governista Partido Nacional Democrático (PND), do presidente Hosni Mubarak, obteve 95% dos assentos no primeiro turno da votação. A oposição, que vinha acusando o governo de fraudar a votação, manifestou revolta com o resultado.

A Irmandade Muçulmana, que no último Parlamento detinha um quinto das cadeiras, foi banida no Egito, mas muitos de seus integrantes concorreram como independentes.

De acordo com os resultados divulgados, o PND conquistou 217 dos 508 assentos no primeiro turno. No total, os partidos do bloco opositor elegeram somente cinco candidatos. O partido liberal Wafd obteve dois assentos, enquanto que o esquerdista Tagammu, o partido Justiça Social e o liberal Ghad conquistaram um assento cada.

Outros seis candidatos independentes conquistaram cadeiras. O restante das 280 será disputado em um segundo turno, marcado para o próximo domingo.

Segundo a mídia local, a imensa maioria dos assentos restantes será alvo de disputa interna entre candidatos do PND, o que deixaria o partido do governo com maioria esmagadora no Parlamento.

Até então com 88 parlamentares, a Irmandade Muçulmana não conseguiu eleger candidatos.

“O regime fabricou a eleição do Parlamento para si”, disse a jornalistas o candidato da Irmandade Muçulmana Saad al-Katani. “Mas nós não ficaremos quietos”.

As eleições no Egito foram marcadas por partidos da oposição acusando o governo de fraude e de usar forças de segurança para intimidar eleitores.

Na segunda-feira, os Estados Unidos declararam que relatos de irregularidades nas eleições egípcias "trouxeram preocupação ao governo americano sobre a transparência do processo eleitoral”.

“Nós ficamos desapontados com os relatos de interrupção de atividades das campanhas de candidatos da oposição e prisões de seus simpatizantes no período pré-eleição, assim como a proibição do acesso da mídia a algumas vozes da oposição”, disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, P.J. Crowley.

O Egito é um importante aliado dos EUA e recebe bilhões de dólares em assistência do governo americano.

Repressão

O Partido Wafd terá 13 candidatos qualificados para o segundo turno, e o Tagammu competirá com outros seis. Doze candidatos que pertenciam à Irmandade Muçulmana, e que após o partido ser posto na ilegalidade decidiram lançar-se como independentes, também concorrerão no segundo turno.

O presidente do Tagammu, Refaat al-Saeed, declarou que as eleições de domingo foram as piores já realizadas em termos de integridade. Ele acusou candidatos do governista PND de compra de votos.

Segundo grupos da oposição, eleitores foram coagidos a votar no PND, enquanto simpatizantes de partidos oposicionistas foram dispersados pela polícia antes que pudessem votar.

Testemunhas disseram ainda à mídia do país que a polícia permitiu que muitos eleitores, militantes de candidatos do governo, votassem duas vezes.

Confrontos nas ruas entre militantes da oposição e simpatizantes do PND ou forças de segurança deixaram ao menos 16 pessoas mortas e cem feridas.

O governo declarou que 35% dos 40 milhões de eleitores compareceram às urnas e que 76 organizações de direitos humanos egípcias e internacionais monitoraram o pleito.

Líderes da oposição disseram que farão consultas internas em seus partidos para decidir se boicotam a eleição presidencial, marcada para 2011.

O atual presidente, Hosni Mubarak, de 82 anos, está há três décadas no poder e sofre de problemas de saúde. Ele deve indicar seu filho, Gamal, para a liderança do PND e abrir caminho para sua candidatura à Presidência