O terror à solta

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

* Assim é impossível chegar ao trabalho.

* Essa falta de segurança em toda parte.

* Filho meu não vai à escola.

* Sempre, sempre à espera de uma providência das devidas autoridades.

* Parece até que é a primeira vez que isso acontece.

* Essa gente não aprende ou não quer aprender?

* Melhor equipados que eu, estão. Sentirão o mesmo medo que sentimos, esta insegurança já familiar?

* Até mesmo ficar em casa parece perigoso.

* E mesmo assim não há garantia. Nunca houve.

* Que dirá por os pés lá fora?

* Olha ali uma incauta tentando atravessar a rua.

* Pronto, essa já era. Eu sabia. Pobre diaba. Onde será que queria ir?

* Deus protege as crianças mesmo. Duas na esquina brincam como se nada estivesse acontecendo.

* O telefone não funciona. Bem que eu deveria ter ido de celular. Fui burro.

* Nesta terra, o que é que funciona nestas horas?

* Haverá algum santo pra gente rezar numa situação assim?

* Só tenho perguntas. Eles, os homens - politiqueiros, demagogos -, na hora das eleições têm todas as respostas, tudo solucionado bonitinho.

* Bem feito pra mim, que é para eu deixar de ser besta e acreditar neles.

* Eu quero o direito de ir e vir, eu quero a paz, eu quero a segurança, eu quero o bem estar prometidos para mim e a minha família. Cadê? Que gato gordo e guloso terá comido?

* Me deu uma coisa, uma espécie de luz, e eu fui conferir a água. Nada. Nem uma gota pinga de torneira alguma. Faz sentido.

* Olha um carro tentando subir a ladeira. Ou melhor. Ouve só um carro. Não paga dez que ele não vai chegar a lugar nenhum.

* Pelo menos ainda tem luz. Dá para acompanhar a pauleira pela televisão.

* O casal do lado pediu para ver com a gente. Ainda perguntou se podia trazer os dois filhos maiorzinhos. Claro. Tudo bem.

* Expliquei que não tinha cerveja gelada para oferecer. Nem nada de fresquinho.

* Pelo menos fazem companhia.

* E nós a eles.

* Ninguém menciona o fato. Mas a verdade é que juntos a gente aguenta melhor o tranco.

* Viver é se virar - pra cá ou pra lá - na hora dos trancos.

* E parece que tudo é um tranco após o outro.

* Isso é vida, Senhor, isso é vida, pergunto eu?

* Ano passado foi a mesma história. Este ano piorou muito mais. Agora, se vida ainda tiver, esperar pelo ano que vem.

* Todos nós vidrados na televisão. Muita falação. Linguagem mal empregada. Uma gente que se diz profissional nervosa sem dizer coisa com coisa.

* Informação mesmo, no duro, não tem nenhuma a dar.

* Mas devem pegar um montão de gente vendo, pois outro remédio não existe. Sofrimento dos outros dá um dinheirão.

* Uma pausa para nossos comerciais.

* Bando de vagabundos.

* É, estão gastando. Daqui de dentro de casa dá para a gente ouvir helicóptero. Mais de um. Alguém faturou alto. Só não faturaram soluções,

* Longe, uma voz num megafone. Comandante dando ordens. Desordenadas todas, por certo. Garanto que está com a farda impecável, empostada como sua voz. Contei três erros de concordância em duas frases berradas.

* Enfim, na tela, alguém com uma notícia vagamente concreta. O frio que não se via há mais de 17 anos na Escócia e no País de Gales deverá continuar por pelo menos mais uma semana. E muita neve caindo. Aqueles mapinhas incompreensíveis. A coisa se encaminha para o sudeste. À noite, em quase todo o país, uma média de menos 8 graus. De dia, com o fator vento, idem.

* Uma nevasca pegou o caminho de Londres. Essa vai direto para onde deveria ter ido de início. Palácio e Parlamento. De dia, o meteorologista (na verdade uma moça que nunca deveria ter parado de vender liquidificador) anuncia, até o fim-de-semana, uma máxima de 2 graus. Acima de zero, promete ela.

* E sorri. De quê?