África pode se tornar exportadora de alimentos em uma geração, diz acadêmico

Mulher prepara alimentos em Uganda
Image caption Produção de alimentos na África caiu cerca de 10% desde 1960

A África pode se tornar autossuficiente na produção de alimentos e se transformar em um grande exportador de produtos agrícolas em uma geração, segundo afirma um novo livro publicado por um acadêmico da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

No livro The New Harvest (A Nova Colheita, em tradução livre), Calestous Juma, diretor do projeto de Ciência, Tecnologia e Globalização de Harvard, sugere aos líderes africanos que considerem a expansão agrícola como ponto central no processo de tomada de decisões.

Segundo o queniano Juma, as melhorias em infraestrutura e mecanização e os alimentos transgênicos podem contribuir para elevar a produção agrícola.

As considerações do professor de Harvard devem ser apresentadas nesta quinta-feira a um grupo de líderes africanos reunidos na Tanzânia para uma minicúpula.

O encontro entre os presidentes de Tanzânia, Quênia, Uganda, Ruanda e Burundi deve discutir a segurança alimentar africana e as mudanças climáticas.

Em entrevista à BBC antes do encontro, Juma disse que os líderes africanos precisam reconhecer que “agricultura e economia são a mesma coisa para a África”.

“É de responsabilidade de um presidente africano modernizar a economia, e isso significa essencialmente começar com a modernização da agricultura”, disse.

Abundância

A produção global de alimentos disparou nas últimas décadas, mas permanece estagnada em várias partes da África, apesar de o continente abrigar terras aráveis e mão de obra em “abundância”, diz Juma.

Ele estima que enquanto a produção global de alimentos cresceu 145% nos últimos 40 anos, a produção de alimentos na África caiu 10% desde 1960, o que ele atribui ao baixo investimento.

Apesar de 70% dos africanos terem algum envolvimento com a agricultura, a quantidade de subnutridos no continente cresceu de 150 milhões para 250 milhões desde 1990, segundo suas estimativas.

A receita de Juma sugere a expansão da infraestrutura básica, incluindo novas estradas, irrigação e esquemas de energia.

Segundo ele, as fazendas deveriam ser mecanizadas, locais para armazenamento e processamento precisam ser construídos e a biotecnologia e o cultivo de alimentos transgênicos devem ser usados para a obtenção de benefícios.

Mas o que é necessário, sobretudo, é a vontade política nos níveis mais altos, diz ele.

“Você pode modernizar a agricultura em uma área ao simplesmente construir estradas, então você pode levar sementes e escoar a produção”, disse ele à BBC.

“Os ministros dos Transportes não estão interessados em conectar as áreas rurais, estão interessados principalmente na conexão de áreas urbanas. É preciso que um presidente chegue e diga que quer uma ligação para que isso aconteça”, afirmou.

Ele acredita que há um grande potencial para a expansão de cultivos tradicionalmente produzidos na África, como sorgo, mandioca, inhame ou milheto.

Mudanças

Juma vê áreas nas quais os agricultores terão que se adaptar por causa das mudanças do clima – produtores de cereais podem ter que mudar para a criação de gado, diz, enquanto outros podem escolher opções mais radicais.

“Cultivos de árvores como fruta-pão, que é do Pacífico, podem ser introduzidos na África, porque as árvores são mais resistentes às mudanças climáticas”, diz Juma.

Ele também vê um papel importante para os cultivos de produtos geneticamente modificados, como o algodão transgênico ou o milho transgênico, que já estão sendo produzidos no continente.

“Você precisa ser capaz de produzir novos cultivos e adaptá-los às condições locais... e isso é o que vai forçar mais países africanos a pensar sobre suas novas técnicas genômicas”, afirma.

Investimentos

George Mukkath, diretor dos programas de caridade da ONG Farm Africa, elogiou o estudo, mas disse que, com muitos países africanos investindo menos do que 10% de seus PIBs na agricultura, os políticos precisam “colocar o dinheiro onde estão suas palavras”.

“Isso é o que estamos falando há vários anos”, disse. “A produtividade africana é muito baixa. Se há um investimento, os agricultores africanos são muito capazes de produzir alimentos suficientes não somente para se alimentar, mas também para o mercado de exportação.”

Mas Steve Wiggins, pesquisador da organização britânica Overseas Development Institute, diz que mudanças práticas modestas são preferíveis a longas listas de desejos.

“É perfeitamente possível fazer a África ter um ritmo de crescimento muito maior, mas eu não teria uma lista tão longa de coisas a fazer, especialmente se pensasse que elas dependem de investimento do governo”, disse.

Para ele, não são necessários grandes investimentos para fazer a diferença.

Wiggins também adverte que os centros urbanos africanos não podem ser ignorados, porque eles podem prover importantes mercados para os agricultores africanos.