Lessaleaks

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Está na moda. Tal de Wikileak. Um sítio só de vazamentos. Primeira página em tudo quanto é jornal. Derrubando reputações.

Só não derrubou a grandiosa vitória do exército brasileiro (que digo eu? Eu queria dizer Exército Brasileiro) sobre os nefandos narcotraficantes das partes mais corruptas, e também mais ostentosas, das nossas 700 favelas. Alguém de gabarito já comparou o embate e seu desenlace a “nosso 7/11”.

Hinos continuam a ser ouvidos, se prestarem muita atenção. Devido à nossa prudência e serenidade, as autoridades que superaram essa Al-Qaeda que funcionava às escancaradas e mantinha sob o seu jugo uma população – humilde, é bem verdade – honesta e trabalhadora, terá agora que se virar. Mais que charuto em boca de bêbado, segundo o próprio linguajar dos repugnantes indivíduos ora mantidos em Guantánamos de nossa engenhosidade e de onde não poderão nunca, nunca mais ferir nossos bons costumes.

Parentes ansiosos aguardam a divulgação do nome dos 45 mortos. Ou 35. Ou ainda, fazendo por baixinho, 30. Estavam no ground zero da brilhante operação de resgate favelária tedesca narcotraficante.

Não sei se me adiantei ao assunto a que hoje pretendia me dedicar, vazar com muita honra, sim, senhor, enfrentando pesados preconceitos, mitos e derrubando ícones emblemáticos supostamente ilibados. Creio que não.

Quantas vezes for vazada a notícia de que o campo está livre, no Rio de Janeiro, para a prática com segurança, em qualquer lugar, dos mais variados esportes, melhor será para nós. Tínhamos um nome e um cartão postal a zelar. Ambos foram recuperados.

Mantendo – e continuo me achando a vazar – o exemplo norte-americano com seu “7/11”, consta que já há mesmo um projeto de lei propondo 700 projetos arquitetônicos a serem distribuídos por nossas favelas que, agora, e finalmente, voltam a usufruir da reputação poética que sempre gozaram.

Favela é amor, doçura e corações bem enfeitados. Poderemos cantar de novo (depois do Hino Nacional, evidentemente) aqueles nossos velhos e poéticos sambas, marchas e canções. Só para lembrar, seguem alguns trechos, uma espécie de medley ou potpourri que deixo vazar com os olhos marejados:

"No Carnaval me lembro tanto da favela, oi, / onde ela, oi/ sambava…" (Oi. Sempre fomos de amores doridos) "Favela/ ô/ que me viu nascer..." "Pois quem nasce lá no morro/Já nasce pertinho do céu…", "Todo mundo chorou na favela/Todo mundo menos eu…"

E tudo aquilo que julgávamos perdidos e o BOPE e seus aliados recuperaram tal como nos acostumamos a ver em Tropa de Elite 1 e 2.

Mas, perguntará o leitor atento, justamente indignado: "O que tem isso tudo a ver com Wikileaks, com vazamentos?"

À primeira vista, leitor atento, nada, absolutamente nada. Mas o bom vazamento é como a diamba de primeiro time. Engana, faz que vai para lá, depois para cá, e acaba partindo como um demônio alado rumo ao gol adversário.

Vazar não é tão simples assim. Mentes brilhantes continuam decifrando a mais recente leva colocada no mercado mediático pelo australiano, um antípoda de escol, Julian Assange. A prática de digerir leaks exige feroz concentração e disciplina. Quem me conhece e me lê, sabe disso. A coisa parece difícil. Dá um trabalhão. Mas…compensa.

Não vou fazer feito a BBC que, na segunda-feira, dia 29 de novembro, em programa jornalístico de televisão levado ao ar em horário nobre, acusou – e mostrou pau e cobra – que três altos funcionários da FIFA pegaram propina e propina alta, na década de 90. Tinha, no "Trio Atacante do Achaque", não só um paraguaio mas também um camaronês, além e principalmente de nosso muitíssimo conhecido Ricardo Teixeira. Cada um do trio maravilhoso pegou algumas centenas de milhares de dólares. Bastou apontar os campos em que algumas equipes deveriam se digladiar.

A BBC “leakou” meio wiki demais. Wiki, em havaiano, quer dizer rapidinho. Como a bola passada pelo ponta direita para o meia. Em matéria de vazamento sou mais o Assange. Pode parecer cabotinagem, mas sou até mesmo este criado que, à sua maneira, vos “leaka”.