Choro 2018

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

A Inglaterra está precisando de um Winston Churchill que, armado de eloquência, charuto na boca, muito conhaque na cuca e V da Vitória nos dedos, dê um jeitinho e levante o moral do povaréu aqui.

O negócio está uma choradeira que é de dar vontade de, mesmo com essa nevasca toda, pegar o caminho do aeroporto e voltar a enfrentar bala de polícia e narcotraficante.

A coisa por estas bandas beira o vexame. Políticos, jornalistas, torcedores de futebol ou autoridades esportivas, todos debulhados em lágrimas, doem mais do que furúnculo supurado.

Futebol é jogo pra homem. Dizem. Tudo bem. Mas no gramado, certo? Fora dele, há que se aguentar as e os pontas. Sem lenço enxugando os olhos.

O vexame correu mundo. Na quinta-feira, todos já sabem, em Zurique, na Suiça, contando com uma neutralidade tradicional (aliás, pura invenção), foram sorteados em livre escrutínio, dizem, por 22 membros de um suposto alto comitê de 208 autoridades esportivas, os nomes dos países que sediarão as duas próximas Copas do Mundo: a de 2018 e a de 2022.

Os envelopes foram abertos por aquele que algumas almas generosas chamam de “controvertido”. Ele, Sepp Blatter, o presidente, já quase que em perpetuidade da FIFA, entidade que rege o que se passou e deverá passar nos gramados verdes de tudo quanto é time de futebol do mundo, à exceção do Lá Vai Bola de Lorena, no interior de São Paulo.

O resultado das deliberações a que chegaram as mentes esclarecidas que compõem a seleção “fifesca” foi saudado com a devida alegria por tudo quanto é habitante da Rússia e de Catar (catarinenses?).

Vão ser muitos milhões, talvez bilhões, de dólares a serem captados em turismo e venda de quinquilharias. Uma espécie de casamento de príncipe britânico com plebeia só que com um tiquinho a mais de penalidade máxima, foguete e vuvuzela.

O sorteio, se assim o podemos chamar, deu-se na quinta-feira. Os ingleses ja contavam com o ovo no, digamos assim, ninho da galinha. Tanto é que mandaram para o evento, transmitido ao vivíssimo, pela televisão, um príncipe, e recém-nubente, só por garantia, uma espécie de líbero, William, um primeiro-ministro, David Cameron, e um ex-jogador de futebol que ninguém sabe direito o que faz hoje em dia, David Beckham.

Na segunda-feira, o tradicional e prestigioso programa de TV da BBC, Panorama, transmitiu 30 minutos de duras acusações à FIFA, onde a nota predominante foi a de que pelo menos, e pela transmissão comprovada, três membros do comitê executivo da entidade teriam recebido gordas propinas na década de 90 oferecidas por empresas de marketing esportivo.

Dos três em questão, um era paraguaio, outro camaronês e o terceiro nosso muito conhecido, e do Pelé também, Ricardo “Havelange” Teixeira.

Nenhum deles, até agora, negou coisa alguma. Fazem embaixada em algum saguão de hotel 5 estrelas do mundo, que, quem sabe?, talvez um ano desses venha a sediar sua própria Copa do Mundo. O também prestigioso Sunday Times já batera bola com o assunto.

Agora, com nevasca e tudo, país quase paralisado, basta abrir o jornal para, mesmo nas páginas não-esportivas, dar de cara com um chorão culpando Deus e o Mundo pela tremenda injustiça da FIFA com a Inglaterra. Toda sorte de explicações, justificativas e apelações podem ser encontradas. Menos a verdadeira.

Tudo culpa do David Beckham. Indo mais direto ao ponto, como um Panorama e um Sunday Times todo meu, a culpa está nos cabelos do Beckham.

Em sua carreira de futebolista, Beckham já os usou de todas as formas e cortes possíveis e imagináveis, além de todas as cores do arco-iris. No momento, Beckham opta pelo “corte tsunami”: marcantes tons de cobre e aço num mar agitado de madeixas revoltas.

Só pode ser sugestão de sua senhora e consagrada esposa, Victoria Beckham, residente nos Estados Unidos, e célebre por já ter sido, e ainda ser, tudo, de Spice Girl, a, segundo ela e seus personal assistants, cantora, compositora, dançarina, modelo, estilista e mulher de negócios gerente das iniciativas do senhor seu esposo, David.

Quando a comissão da FIFA viu aquela cabeleira com aquele homão embaixo, não teve por onde: “Essa, não. Copa de 2018 a Inglaterra não pega de jeito algum”, pensaram em comum em variantes diversas.

Outra escola de analistas esportivos e políticos argumenta que o fato de David e Victoria terem dado o nome de Brooklyn a um pobre coitado de um filho também contou ponto.

As teorias conspiratórias prosseguem,