Fidel (coração) Obama

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Consta que o grafite vem se reproduzindo nas paredes de Cuba e dos Estados Unidos. Conhecemos demais. Eu (coraçãozinho) Tal Coisa.

Há talvez um excesso de paz na Terra aos homens de boa – e também de má – vontade.

Em Cuba, e já se espalha pela América Latina, Yo (corazonzito) Obama.

E seu reverso ou consequência vem sofrendo campanha por norte-americanos que não desejam a extradição ou a morte do assanhado antípoda Julian Assange: I (little heart) Fidel.

Quem te viu e quem te vê, hein, Fidel? Aguentou firme invasão de Kennedy, charutos explosivos da CIA, viu passarem, ou melhor desfilarem desta para melhor (possivelmente pior), 10 presidentes dos Estados Unidos. Unidos, sejamos claros, em desejar, se não tramar, o assassinato do jefe máximo cubano, ora contando 84 anitos: o equivalente, mais ou menos, de generais de pijamas.

Ao que parece, há em Havana um destacamento militar encarregado de, lá pelas 11 da manhã, botar Fidel numa cadeirinha de lona e deixá-lo exposto aos saudáveis raios da ilha caribenha.

Um segundo destacamento, por volta de 1 da tarde, recolhe-o – limpa a babinha que escorreu do canto esquerdo da boca desenhando um mapa da ilha na gola do pijama, e o leva para desfrutar dos prazeres da culinária cubana. Sopinha de feijão preto e broinha de fubá El Mimoso é sua refeição predileta.

Depois, uma siesta, que ninguém nessa idade é de ferro, mesmo tendo passado pelos rigores de Sierra Maestra.

Lá vai o grande Fidel a caminho da rede cantando os poucos compassos que, ao longo de uma vida, conseguiu decorar de Guantanamera. Não é nenhum Pete Seeger mas dá, aqui e ali, umas notinhas quase, quase afinadas. No fundo, no fundo, Fidel preferia ouvir Bola de Nieve cantando Drume Negrita.

À espera do sono benévolo da tarde quente e preguiçosa de Havana, um soldado de voz macia e musical lê para ele uma seleção especial dos noticiários nacional e internacional especialmente preparada para ele por equivalentes ao que há de melhor em mestres-cucas cubanos.

Corre, à boca pequena, e grande também, que cada vez que é mencionado o nome de Barack Obama, Fidel abre os olhões sonolentos e, em sua melhor dicção cubana, pergunta e pede, “Cumequié? Obama? Lê de novo. Caprichando,”

É o que afirmam serviços de inteligência locais e também os sediados em Little Havana, em Miami, estado da Flórida, EUA.

Os jornais estão dando.

Assange, ora muito vedete, aguarda pressuroso mais novidades para poder vazar. (Assange tem a alma das colunistas de mexericos dos tablóides.)

Tudo indica que a idade não é motivo para Fidel se aposentar das folganças amorosas. Uma notícia de última hora, divulgada ainda agorinha pela WikiLeaks, revela que, por telegramas, a diplomacia do Tio Sam está prestes a parir uma abóbora de tão preocupada.

Estavam eles, os diplomatas americanos, a divulgar, também lá de suas siestas, a mais recente diatribe do líder máximo, decano dos ditadores. De repente, a zebra.

Fidel, em sua empreitada autobiográfica-jornalística, a Reflexiones del Compañero Fidel, elogiando Obama. Elogiando mesmo.

Uma loucura de azeitonas no empadão americano.

E fazendo apologias para quem o visita (só entre as 4 e 6 da tarde) das qualidades ímpares e pares do presidente americano.

O nobelizado líder pacífico americano (está ultimando a venda recorde de 96 bilhões de dólares em armamentos para a Arábia Saudita), em 9 de junho, no Cairo, discursou sobre as relações entre seu país e os muçulmanos.

Fidel não teve dúvida: enviou uma mensagem congratulatória de 3.500 palavras, média que ele reserva apenas para os cartões de Natal e Feliz Ano Novo.

Um diplomata americano, anônimo nesta coluna ao menos (não vazamos), foi longe e disse que assim não dava pé, virara obsessão. Sem erro de ortografia e concordância, o que é raro para os americanos nomeados embaixadores, já que não são de carreira mas apenas ricos contribuintes para campanhas eleitorais.

“Grande comunicador!”, dizia Fidel, durante todo aquele junho, de sua cadeirinha de lona exposta ao sol, e a guarda cuidava de que nenhum passante o ouvisse. “Grande comunicador!”, repetia Fidel, como se referindo a um Chacrinha ou Sílvio Santos.

Nada mais dissemelhante do que o “bêbado homicida” que, até outro dia mesmo – e parece que foi ontem – reservava para George W. Bush.

Apesar de não ter aprovado de todo o desempenho de Obama na conferência sobre mudanças climáticas em Copenhague (chamou-o de “beirando o demagogo”), Fidel Castro ainda não pune com prisão ou fuzilamento quem espalhar o grafite em questão, o do coraçãozinho, pelos muros e postes da cidade.

Línguas maldosas chegam a dizer que o próprio Fidel Castro rabisca os grafites num caderninho de capa azul onde anota pensamentos para suas “reflexiones” e faz caricaturas de inimigos que já se foram.