Para analistas, ocupações irregulares podem causar novas tragédias no Rio

Segundo o prefeito Eduardo Paes, R$ 250 milhões foram investidos desde as fortes chuvas que causaram a morte de mais de 200 pessoas no Estado em abril de 2010
Image caption No Dona Marta, familias que viviam nas áreas mais altas foram realocadas

Apesar das medidas anunciadas pela prefeitura do Rio de Janeiro para preparar a cidade para as chuvas, especialistas ouvidos pela BBC Brasil dizem que tragédias continuarão ocorrendo enquanto houver ocupação irregular de encostas e faltar planejamento urbano.

Segundo o prefeito Eduardo Paes, R$ 250 milhões foram investidos desde as fortes chuvas de abril do ano passado para corrigir os estragos e prevenir novos deslizamentos e enchentes.

A Secretaria Municipal de Obras vem realizando obras de contenção de encostas e correção de pontos crônicos de alagamento, e começou a operar em dezembro um radar meteorológico comprado para a cidade, instalado no morro do Sumaré.

As ações da prefeitura também incluem o recém inaugurado Centro de Operações Rio, um centro integrado para responder a emergências, e o desenvolvimento, em parceria com a IBM, de um novo sistema de previsão meteorológica – capaz de prever a chegada de grandes chuvas com 48 horas de antecedência, mas que só ficará pronto a partir de maio.

Leia também na BBC Brasil: Rio tem 117 comunidades com casas em áreas de alto risco

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil saúdam as iniciativas, mas cobram outras ações por parte da prefeitura.

“É urgente que a cidade tenha planejamento urbano. As coisas não podem mais correr soltas como estão correndo. É preciso separar as áreas onde se pode construir e as áreas onde não se pode”, diz Maurício Ehrlich, professor do Laboratório de Geotecnia da Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“A ocupação desordenada é a principal causa de fatalidades”, afirma Alberto Sayão, professor de engenharia civil da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio). “Acho que ainda vamos ver muitas tragédias. Retirar as pessoas de áreas de risco deveria ser prioridade zero.”

Habitação

De acordo com o secretário municipal de Habitação, Jorge Bittar, a prefeitura vem procurando controlar o crescimento irregular das favelas com chamado programa Morar Carioca – que envolve a urbanização e a delimitação das áreas das comunidades.

“Servidores da prefeitura dão assistência técnica para construções e fiscalizam o crescimento da comunidade”, diz Bittar. “Além disso, monitoramos com fotos aéreas de grande precisão e estamos adotando uma pronta ação. Identificada uma construção em área de risco ou preservação, será prontamente removida antes de sua conclusão”.

De acordo com Bittar, a secretaria vai promover o reassentamento gradual de famílias que moram em áreas impróprias, como encostas, beiras de rio e áreas de preservação ambiental.

Segundo um estudo da Geo-Rio divulgado nesta quinta-feira, há 18 mil residências em áreas de alto risco em 117 comunidades da cidade.

Emergências

De acordo com o secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, Carlos Roberto Osório, o Centro de Operações Rio é a principal inovação da prefeitura para se preparar para reagir em caso de chuvas fortes.

Inaugurado no último dia 31, o centro reúne representantes e informações de todos os órgãos e concessionárias do município.

“É uma grande plataforma onde têm assento todos os atores que decidem o dia a dia da cidade, fazendo com que o Rio possa responder com rapidez e eficiência a qualquer tipo de incidente”, diz Osório.

O centro foi formulado pela IBM, que também está desenvolvendo desde novembro o sistema de Previsão de Meteorologia de Alta Resolução (PMAR) para a prefeitura.

De acordo com Pedro Almeida, diretor do programa Cidades Inteligentes da IBM Brasil, o PMAR poderá prever chuvas fortes com até 48 horas de antecedência e informar onde a precipitação será maior. Ele deve entrar operação entre maio e junho.

“Como todo sistema, vai precisar de uma fase de ajustes e estará operacional para a próxima temporada de chuvas fortes. Mas a cidade está mais bem preparada para as chuvas desde já, porque com o centro poderá reagir rapidamente a uma crise”, diz.

Limitações

Moacyr Duarte, pesquisador do Grupo de Análise de Risco Tecnológico e Ambiental da Coppe/ UFRJ, diz que a iniciativa é “louvável”, mas considera que o centro vai precisar de um tempo até estar funcionando bem.

“A criação de um centro de emergências numa metrópole da dimensão do Rio é muito importante. Favorece a integração para responder não só às chuvas como também em grandes eventos, como a Copa e a Olimpíada”, diz.

Porém, para Duarte, os órgãos ainda precisam aprender a usar a ferramenta para torná-la realmente eficiente. Ele acredita que o início da atividade vá apontar para as limitações de cada setor representado, e o primeiro passo será remediar essas limitações.

“Só então é que o centro vai se tornar operacional tal como foi vislumbrado”, diz.

“Até agora não estão previstas chuvas com a intensidade do ano passado. Se o centro estivesse recém inaugurado e acontecesse algo como o Morro do Bumba, eles iam levar um baile. Mas, a julgar pelas previsões, eles vão ter tempo hábil para se adaptar”, diz.

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