Enquanto esperam por moradia, desabrigados enfrentam dificuldades em acampamentos

Joseph Donald e esposa
Image caption Joseph e a esposa estão entre os primeiros a ganharem novas casas

O único cômodo da casa que o barbeiro haitiano Joseph Donald, 40 anos, divide com a mulher, os dois filhos e uma irmã está decorado com esmero.

A porta e a janela têm cortinas novas. No chão, um cobertor, também novo, faz as vezes de cama.

Na parede, o retrato de casamento, único pertence que Donald conseguiu salvar quando o terremoto de janeiro de 2010 destruiu o apartamento alugado em que morava em Porto Príncipe.

“No momento do terremoto eu estava vendendo calçados na rua, perto do aeroporto. Sempre carrego uma pasta com minha certidão de casamento e esse retrato. Foi só o que sobrou. Perdi tudo o que tinha”, diz.

Casas

Donald e a família estão entre os primeiros contemplados com casas novas no acampamento de Corail, ao norte da capital haitiana.

Segundo Jacques Saint-Louis, vice-administrador do acampamento, a ideia é transferir todas as cerca de 1,3 mil famílias que vivem em barracas para as novas casas.

O primeiro lote, de 150 moradias, ficou pronto em dezembro.

Donald estava na casa nova havia 15 dias quando recebeu a visita da repórter da BBC Brasil, no final do mês.

O fato de o cômodo ser pequeno para tanta gente e não ter banheiro não diminui a empolgação de quem passou o último ano em uma barraca de lona.

Image caption Já na casa nova, Donald espera poder investir na profissão de barbeiro

“Estou muito feliz de estar aqui. É mil vezes melhor do que viver em uma barraca. Aqui não sofro com o vento, não pego chuva. Na barraca, tudo ficava inundado quando chovia”, diz Donald.

Agora, ele planeja investir na profissão de barbeiro. Chegou a comprar um gerador, já que não há energia elétrica no acampamento, mas sofre com a falta de gás.

“A falta de eletricidade é um dos principais problemas. Se houvesse energia, as pessoas poderiam vender bebidas geladas, ganhar algum dinheiro”, diz.

Apesar da alegria pela casa nova, Donald diz que sua vida “andou para trás” desde o terremoto. “Assim como o país.”

“Resta tudo a ser feito no Haiti. Até hoje ainda há pessoas sob os escombros. Eu agora tenho este lugar para viver, mas milhares continuam enfrentando a chuva e o vento nas barracas”, diz.

Retrocesso

Os estragos causados nas barracas pela chuva e pelo vento foram as reclamações mais comuns ouvidas pela BBC Brasil em conversas com moradores dos acampamentos de desabrigados em Porto Príncipe.

“Quando venta e chove, só nos resta rezar”, diz a professora Roseline Semé, 27 anos, grávida de oito meses, que divide uma barraca em Corail com o marido e a filha enquanto espera ser contemplada com uma moradia.

Assim como os outros moradores, Roseline foi transferida para Corail vinda de outro acampamento.

Em Corail, um grupo de organizações humanitárias se encarrega de fornecer serviços básicos moradores, como banheiros químicos, água potável e escola.

Apesar das dificuldades, a situação dos moradores é bem melhor do que a dos que vivem nos acampamentos irregulares surgidos ao redor de Corail desde o terremoto.

Rotina

Image caption As novas casas tinham acabado de ficar prontas em dezembro

Enquanto esperam ser transferidos para uma casa, moradores tentam retomar a rotina.

A frente da barraca de Roseline é decorada com um pequeno e bem-cuidado jardim. Em muitas tendas visitadas pela repórter da BBC Brasil, os moradores tentam manter os poucos pertences limpos e organizados.

“Eu estava na igreja no momento do terremoto. De repente, o chão começou a tremer, e as pessoas a cair umas por cima das outras”, lembra.

“Não consegui salvar nada do que tinha, tudo foi perdido. A casa em que morávamos desabou.”

Agora ela leciona para as crianças em uma escola montada no acampamento.

A perspectiva de receber uma casa nova, porém, não é considerada por muitos desabrigados uma solução definitiva para seus problemas.

“As casas que estão construindo para nós são minúsculas”, diz Secius Nerland, 45 anos. “Gostaria de voltar a trabalhar e ter um lugar decente para viver.”

Notícias relacionadas