ETA passou de grupo de resistência estudantil a movimento separatista

Image caption Membros encapuzados do grupo anunciaram a trégua em vídeo

Durante quatro décadas, a organização armada ETA realizou uma campanha violenta pela independência de sete regiões no norte da Espanha e sudoeste da França, que os bascos consideram o território de seu país.

No dia 5 de setembro de 2010, o ETA anunciou que não faria mais ataques, mas o grupo já tinha declarado cessar-fogo antes, duas vezes, e abandonado a decisão. Por isso, é vista com desconfiança a nova trégua, anunciada em 10 de janeiro de 2011.

O grupo, cujo nome Euskadi Ta Azkatasuna pode ser traduzido como Pátria Basca e Liberdade, começou suas atividades na década de 60, como um movimento de resistência estudantil que se opunha radicalmente à ditadura militar do general Francisco Franco.

Durante a ditadura, o idioma basco foi proibido, a cultura da região foi reprimida, e intelectuais foram presos e torturados.

O País Basco foi palco da resistência mais violenta a Franco. Depois da morte dele, em 1975, tudo mudou e a transição para a democracia trouxe um governo mais autônomo à região de 2 milhões de habitantes.

A região é a mais autônoma da Espanha, com seu próprio Parlamento, força policial, controle do setor de educação e com a coleta de seus próprios impostos. No entanto, o ETA e seus partidários continuaram pressionando pela independência total.

Sua campanha violenta levou a mais de 820 mortes nos últimos 40 anos. Entre as vítimas estão membros da Guarda Civil, a força policial nacional da Espanha, e políticos locais e nacionais que se opunham às exigências separatistas do ETA.

Nos últimos anos, o grupo foi colocado em situação difícil. Apesar de ter perpetrado alguns ataques, especialistas acreditam que ações combinadas - políticas e policiais - diminuíram a capacidade do grupo.

Passado

Os tempos em que o ETA conseguia matar em média cem pessoas por ano, no final dos anos 70 e no momento em que a Espanha saía da ditadura, parecem estar em um passado muito distante.

Depois da morte de três pessoas em 2003, o grupo evitou ataques mais graves até os últimos dias de 2006. Em 30 de dezembro daquele ano, uma bomba derrubou um estacionamento no aeroporto de Barajas, em Madri, e o governo espanhol culpou o ETA.

Mas, atualmente, o grupo tem algumas redes logísticas na França e algumas ramificações com poucas centenas de jovens, espalhados pelas fronteiras do País Basco, na França e Espanha.

As polícias da França e da Espanha tentaram reduzir a capacidade de ação do ETA. O Executivo e o Judiciário espanhóis também baniram o braço político do movimento - que na última década operou com nomes diferentes como Herry Batasuna, Euskal Herritarrok e Batasuna.

Com a proibição da atuação política do ETA, o governo disse que esperava reduzir o fluxo de verbas e apoio para as unidades do grupo e alegava que as alas políticas e operacionais da organização eram profundamente ligadas.

Golpes

Em conjunto, as polícias da França e Espanha conseguiram desferir golpes importantes contra o ETA nos últimos anos.

A prisão do suspeito de ser o chefe militar do grupo, Garikoitz Aspiazu Rubina, em novembro de 2008, ocorreu seis meses depois da prisão do comandante político do ETA, Javier Lopez Pena. Ambos foram detidos na França, usada há muitos anos como base do ETA.

Desde então, as autoridades dos dois países anunciaram a prisão de uma série de supostas figuras de importância no ETA.

E, segundo correspondentes, o apoio ao grupo também diminuiu, aparentemente não só devido às vitórias recentes dos nacionalistas bascos mais moderados, mas ao crescente sentimento de que o ETA perdeu o contato com a opinião pública.

O sequestro de um vereador local de 29 anos do Partido Popular, Miguel Angel Blanco, promovido pelo ETA em julho de 1997, marcou a mudança de opinião do público com relação ao grupo separatista.

O grupo exigia que 460 prisioneiros fossem libertados e levados de volta para a região do País Basco, em troca da vida de Blanco. A exigência não foi aceita pelo governo espanhol, e Blanco foi encontrado ferido com dois tiros na cabeça. Ele morreu no hospital 12 horas depois.

Como reação, mais de 6 milhões de pessoas foram às ruas da Espanha em manifestações que duraram quatro dias, pedindo o fim da violência do ETA.

No ano seguinte, o ETA decidiu declarar um cessar-fogo por tempo indefinido. Mas a trégua foi encerrada em dezembro de 1999, depois que o governo espanhol se recusou a discutir a exigência de mais independência para o País Basco.

O governo da Espanha sempre condicionou o diálogo com o grupo ao fim da violência.

Atentado

Depois do atentado de 11 de março de 2004 em Madri, atribuído a radicais islâmicos, o número de ataques do ETA caiu ainda mais.

Mesmo assim, um novo cessar-fogo declarado em 2006, então descrito como permanente, foi ilusório.

O ataque contra o estacionamento no aeroporto de Madri, no qual duas pessoas morreram, fez com que o ministro do Interior, Alfredo Rubalcaba, declarasse que o processo de paz com o ETA estava “destruído, liquidado e encerrado”.

Desde então, pelo menos oito pessoas foram mortas pelo grupo.

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