‘Novo governo não vai mudar situação do Haiti’, diz especialista

Foto: Alessandra Corrêa/BBC Brasil
Image caption O Palácio Presidencial haitiano, em Porto Príncipe, está em ruínas

A esperança de um novo governo para comandar o processo de reconstrução do Haiti, após o terremoto que destruiu o país há um ano, foi abalada pelas denúncias de fraude nas eleições de 28 de novembro.

Nesta quinta-feira, o presidente René Préval recebeu o parecer de uma comissão da Organização dos Estados Americanos (OEA) encarregada de revisar o processo.

Préval, que concordou com a presença da comissão, poderá aceitar ou não suas recomendações. Qualquer que seja a decisão, há o temor de novos protestos, como os que ocorreram logo após o primeiro turno.

“Seja quem for o novo presidente, não terá credibilidade para liderar a reconstrução do país”, disse à BBC Brasil o sociólogo haitiano Alex Dupuy, professor da Wesleyan University, em Connecticut.

“Não vai mudar a situação do Haiti.”

Revisão

Image caption Nas ruas ainda se vê cartazes de candidatos como Jude Célestin

O resultado inicial da votação indicou uma disputa no segundo turno entre a ex-primeira-dama Mirlande Manigat (que teve a maioria dos votos) e o candidato governista Jude Célestin.

A divulgação do resultado foi seguida de violentos protestos, principalmente por parte de eleitores do cantor Michel Martelly, que teria ficado de fora do segundo turno por uma diferença de apenas 7 mil votos contra Célestin.

Acredita-se que, após revisar a votação, a comissão da OEA recomendou ao governo do Haiti que o segundo turno seja disputado por Manigat e Martelly.

O mandato de Préval termina oficialmente em 7 de fevereiro. No entanto, diante do impasse, o segundo turno, inicialmente previsto para este domingo, teve de ser adiado e deve ser realizado somente em meados de fevereiro.

“Mesmo que fosse um governo inteiramente legítimo e com credibilidade, ainda assim continuaria subserviente à comunidade internacional”, afirma Dupuy.

Impaciência

O estado de devastação em que o país permanece um ano depois do terremoto que matou 230 mil pessoas e destruiu sua já precária infraestrutura leva muitos haitianos a questionar a ação da comunidade internacional.

“Se logo após o terremoto os haitianos estavam agradecidos pela resposta humanitária e a solidariedade da comunidade internacional, hoje estão cada vez mais impacientes”, afirma Dupuy.

Um dos principais alvos desse descontentamento, segundo o sociólogo, é a ONU.

“A ONU não foi especialmente útil desde o terremoto. Não está claro qual é o seu papel no Haiti, e as tropas de paz começam a ser vistas cada vez mais como tropas de ocupação”, diz o sociólogo, que nasceu em Porto Príncipe e vive nos Estados Unidos.

Image caption Mirlande Manigat que disputará o segundo turno com Célestin

“O Haiti não é um país em conflito. Não há uma guerra civil. Se a comunidade internacional quisesse exercer um papel significativo, teria de se concentrar na construção de instituições estáveis, e não na força militar”, afirma.

Uma das críticas comuns ao processo que se instalou após o terremoto é a de que os haitianos acabaram deixados de lado das decisões sobre seu país.

Segundo Dupuy, o governo haitiano está sendo afastado da definição das prioridades do país e a ação das milhares de agências humanitárias acaba reforçando a dependência do Haiti de ajuda estrangeira.

“Essa crescente dependência de ajuda estrangeira foi iniciada ainda nos anos 1970, quando a comunidade internacional colocou em prática uma estratégia para transformar o Haiti em fornecedor de mão-de-obra barata”, diz.

“Nada mudou na visão da comunidade internacional. O terremoto foi apenas um desvio temporário dessas políticas”, afirma o sociólogo.

Críticas

Durante esta semana, nas cerimônias para marcar o primeiro ano do terremoto, houve várias trocas de acusações entre agências humanitárias e governo.

As principais críticas são de que, apesar de a tragédia no Haiti ter provocado uma onda de doações quase sem precedentes, apenas uma parcela do dinheiro efetivamente chegou ao país.

Dos US$ 2,1 bilhões prometidos para o ano de 2010, menos da metade foi entregue.

Enquanto isso, a reconstrução do país permanece paralisada. Estima-se que apenas 5% dos escombros tenham sido removidos e que 1 milhão de desabrigados ainda vivam em barracas de lona.

Nem ao mesmo o número exato de vítimas é possível saber, já que ainda há corpos sob os escombros, um ano depois do terremoto.

As agências humanitárias de modo geral foram criticadas por, em alguns casos, manter parte do dinheiro recebido em doações no banco enquanto o país sofre com uma epidemia de cólera que já matou mais de 3,6 mil haitianos desde outubro.

Outra crítica foi quanto à falta de coordenação entre as agências, que prejudicaria a execução de um plano para a recuperação do Haiti.

Image caption Propaganda eleitoral de Michel Martelly, em ruínas de prédio

Futuro

O ex-presidente americano Bill Clinton, que co-preside a Comissão Interina de Reconstrução do Haiti ao lado do primeiro-ministro haitiano, Jean-Max Bellerive, admitiu estar frustrado com o o ritmo lento da recuperação, mas disse acreditar em avanços a partir deste ano.

No entanto, muitos haitianos parecem estar cansados de esperar.

Nos muros de Porto Príncipe, é comum ver escrita a frase “Haiti pap Péri”, algo como “O Haiti não vai perecer”.

O tradutor que acompanhou a reportagem da BBC Brasil no país, Roudy Colin, não concorda.

“O Haiti já pereceu”, diz ele. “Não há esperança.”

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