Premiê e presidente interino deixam partido governista na Tunísia

Guarda-costas presidenciais no gabinete de governo em Túnis (AFP)
Image caption Presença militar ainda é forte em Túnis e hovue novos protestos

O presidente interino da Tunísia, Fouad Mebazaa, e o primeiro-ministro, Mohamed Ghannouchi, anunciaram nesta terça-feira suas saídas do partido governista, o mesmo do ex-presidente Zine Al-Abidine Ben Ali, que renunciou na semana passada.

A saída deles do partido RCD seria uma resposta à insatisfação de novos ministros do governo de unidade nacional apontado na segunda-feira com a composição do gabinete, onde foram mantidos vários membros da agremiação.

Quatro ministros, com fortes ligações com sindicatos ou a oposição, anunciaram nesta terça-feira a saída do governo, em protesto contra a permanência nos seus cargos de vários membros do antigo governo.

O ex-presidente Ben Ali deixou o poder na última sexta-feira após uma série de protestos populares contra ele e seu governo.

Protestos

Também nesta terça-feira, manifestantes entraram em confronto com a polícia na capital, Túnis. Muitos protestavam contra a permanência de membros do governo de Ben Ali no gabinete ministerial interino.

Ao anunciar o seu gabinete na segunda-feira, Ghannouchi – que era premiê no governo de Ben Ali – afirmou que seis ministros do ex-presidente, entre eles o do Interior e da Defesa, continuariam nos cargos, enquanto a oposição ficaria com os Ministérios de Educação Superior, Desenvolvimento Regional e Saúde.

De acordo com o correspondente da BBC na Tunísia Wyre Davies, a decisão de manter vários nomes do antigo governo neste governo interino deixou vários tunisianos insatisfeitos.

Davies relata que tropas de choque do Exército continuam nas ruas da capital, Túnis.

No entanto, segundo o correspondente, o anúncio de que as restrições à liberdade de imprensa foram relaxadas e da libertação de prisioneiros políticos pode ter convencido boa parte do país a apoiar o governo interino, enquanto a Tunísia se prepara para novas eleições.

Davies afirma que governos ocidentais deram a entender que ainda esperam mais reformas e mais liberdade política. Governos de países vizinhos no norte da África, muitos deles comandados por regimes autoritários, ainda não se manifestaram sobre o novo governo tunisiano.

Reformas e economia

Ben Ali, o presidente que renunciou, chegou ao poder em 1987 com um golpe de Estado que derrubou o primeiro presidente da Tunísia após a declaração de independência, Habib Bourguiba.

O ex-presidente prometeu promover uma transição gradual para a democracia no país, mas acabou se fixando no poder com sucessivas mudanças na Constituição e eleições em que era o candidato único.

Uma das primeiras tarefas do governo interino será avançar com as reformas constitucionais e preparar a Tunísia para eleições livres.

Outra tarefa urgente, de acordo com Wyre Davies, é estabilizar a economia do país. A estimativa é de que a crise das últimas semanas tenha custado ao país cerca de US$ 2 bilhões.

Crise

Segundo a atual Constituição tunisiana, a nova eleição presidencial deve acontecer em menos de 60 dias.

Os protestos começaram no último mês motivados pela insatisfação com o alto desemprego, o aumento no preço dos alimentos e a corrupção.

Segundo o governo, 78 pessoas morreram em choques entre manifestantes e a polícia.

Ben Ali, que foi presidente da Tunísia por 23 anos, viajou na sexta-feira para a Arábia Saudita, depois de renunciar ao cargo.

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