Blair diz que ignorou alerta sobre ilegalidade da guerra no Iraque

Tony Blair
Image caption Blair defendeu sua decisão de ir à guerra com o Iraque

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair admitiu nesta sexta-feira ter ignorado em 2003 as advertências do ex-advogado-geral do país, Peter Goldsmith, de que atacar o Iraque sem o apoio das Nações Unidas seria ilegal.

Convocado pela segunda vez para depor no inquérito oficial sobre o papel da Grã-Bretanha na Guerra do Iraque, Blair disse ter acreditado que o alerta dado por seu principal consultor legal não era definitivo.

Ele disse também que achou que Goldsmith mudaria de ideia sobre a necessidade de uma segunda resolução da ONU que justificasse a violência quando soubesse de todos os detalhes, e negou ter pressionado o advogado-geral para que mudasse seu parecer.

O ex-primeiro-ministro foi questionado sobre as possíveis contradições entre seu depoimento no inquérito, no ano passado, e as declarações do próprio Goldsmith.

‘Desconforto’

O advogado-geral disse ter se sentido “desconfortável” com declarações que Blair fez a parlamentares antes da guerra de que o Iraque poderia ser atacado sem autorização da ONU, quando havia dito o oposto ao premiê.

Blair revelou que também sentiu desconforto ao fazer o pronunciamento, mas disse estar argumentando politicamente a favor do início do conflito.

“Quero deixar claro que, obviamente, lamento profundamente as perdas de vidas, sejam elas de nossas forças armadas, das de outras nações, de civis que ajudaram o povo iraquiano ou dos próprios iraquianos e desejo dizer isso porque é a coisa certa a se dizer e é o que eu sinto”, disse Blair.

Neste momento, o público presente à audiência, que incluía parentes de mortos no Iraque, reagiu com gritos de “tarde demais” .

Irã

O ex-premiê, que atua hoje como enviado de paz para Oriente Médio da ONU, disse que atualmente o maior desafio é representado pelo Irã.

“Vejo o impacto e a influência do Irã o tempo todo. É negativa, desestabilizadora e dá sustentação a grupos terroristas”, disse ele.

“(O Irã) faz tudo para impedir o progresso no processo de paz no Oriente Médio e para evitar que a região possa embarcar em um processo de modernização de que tanto necessita”, completou.

“E isso não ocorre porque fizemos algo. Eles fazem isso porque discordam fundamentalmente com nosso modo de viver e vão continuar fazendo isso a menos que sejam impedidos com a determinação necessária e, se necessário, força”, disse.

Iniciado no final de novembro, o inquérito está analisando o período entre 2001 e 2009 e investiga três pontos principais: a justificativa para a entrada no conflito; a preparação para a invasão do Iraque e as deficiências no planejamento para a reconstrução do país asiático.

Com membros nomeados pelo próprio primeiro-ministro, o júri presidido por John Chilcot não vai estabelecer culpa ou determinar responsabilidade civil ou criminal, mas apenas emitir advertências e recomendações para evitar que eventuais erros cometidos no episódio sejam repetidos no futuro.

O relatório final será debatido no Parlamento.

Notícias relacionadas