Mubarak diz que Egito mergulharia no caos se ele renunciasse

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Image caption Confrontos entre manifestantes pró e contra Mubarak já duram 10 dias

O presidente egípcio, Hosni Mubarak, afirmou nesta quinta-feira que gostaria de deixar o poder imediatamente, mas não o fará porque acredita que isso mergulharia o país no caos.

Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da rede ABC, ele disse estar “cansado” após três décadas no comando do país.

Mubarak afirmou ainda que ficou abalado com protestos violentos na Praça Tahrir, no centro do Cairo. “Fiquei muito decepcionado com os eventos de ontem. Não quero ver egípcios brigando uns com uns outros”, afirmou Mubarak, segundo a jornalista.

Ele descreveu o presidente americano, Barak Obama, como um “bom homem”. No entanto, quando questionado sobre como responderia ao apelo de Obama para que a transição no poder começasse o quanto antes, respondeu: “Você (Obama) não entende a cultura egípcia, nem o que aconteceria aqui se eu deixasse o poder agora.”

Alívio

Amanpour, que conversou durante 30 minutos com o líder egípcio, questionou Mubarak sobre como ele se sentiu ao ser insultado pela multidão que pedia sua saída do poder.

“Não me importo com o que as pessoas dizem sobre mim. No momento, eu me importo apenas com o meu país, com o Egito”, disse o presidente, de acordo com Amanpour.

Mubarak também disse que se sentiu aliviado quando anunciou que não concorreria a um novo mandato e que jamais fugiria do Egito. Ele está abrigado no palácio presidencial, fortemente protegido por guardas e bloqueios.

Durante a entrevista, Mubarak alertou para o risco de a Irmandade Muçulmana - o principal movimento oposicionista egípcio - ocupar qualquer vácuo de poder e culpou o grupo pela violência.

Convite

Horas antes, enquanto os confrontos entre manifestantes pró e contra o governo do Egito no centro do Cairo continuavam, o novo vice-presidente do país, Omar Suleiman, disse que convidou a Irmandade Muçulmana para dialogar.

Entretanto, segundo Suleiman – que concedeu entrevista à TV estatal egípcia –, os membros do grupo estariam “hesitantes" em relação ao convite.

A Irmandade Muçulmana, o maior e mais organizado grupo de oposição no Egito, é oficialmente proibida, mas tolerada pelo governo, e seus integrantes concorrem em eleições como independentes.

Image caption Mubarak afirmou não se importar com os insultos contra ele, vindos dos manifestantes

Analistas dizem que a abertura de um diálogo com o grupo representa uma grande mudança de postura do governo.

"Estamos prontos para o diálogo, seguindo o interesse da nação e na agenda do povo", disse Mohammad Morsi, um dos líderes da Irmandade Muçulmana. "E quem está definindo a gente no momento são os manifestantes, os milhões de manifestantes."

Saída de Mubarak

Suleiman rejeitou as exigências dos manifestantes de dissolução do Parlamento, afirmando que este “é necessário para avaliar o tema das reformas constitucionais” e disse que as eleições presidenciais devem ocorrer em setembro, como originalmente planejado.

"O presidente não se candidatará, nem seu filho", disse ele, referindo-se a rumores que há anos circulam no Egito de que Gamal Mubarak poderia suceder seu pai, o presidente Hosni Mubarak.

O vice-presidente, que até a semana passada ocupava o cargo de chefe da inteligência, pediu tempo para que o governo possa atender as exigências dos manifestantes.

Ele disse ainda que "pedir pela saída de Mubarak é pedir pelo caos" e que a "intervenção externa em nossos assuntos é estranho, inaceitável e algo que não permitiremos".

Suleiman disse que o país perdeu pelo menos "US$ 1 bilhão em turismo nos últimos nove dias" e que um milhão de turistas deixaram o país desde o início dos tumultos, na semana passada.

Violência

Nesta quinta-feira, foram registrados novos confrontos no Cairo entre os grupos a favor e contra Mubarak - embora sem a mesma intensidade do dia anterior.

Às 17h (horário local, 13h de Brasília), o palco dos confrontos parecia ter mudado da Praça Tahrir para a ponte adjacente, a 6 de Outubro, e eles seguiam violentos.

Manifestantes pró-Mubarak pareciam estar em um número ligeiramente menor do que os contrários ao governo, porém mais bem armados e aparentemente disparando rojões contra os adversários.

Pouco antes do início destes confrontos, o Exército retirou seus blindados das proximidades da praça, aparentemente abrindo espaço para os choques entre os dois grupos.

O correspondente da BBC Paul Danahar afirmou ter visto pessoas jogando pedras umas nas outras e ter ouvidos tiros na Praça Tahrir.

Mais cedo, os manifestantes contrários a Mubarak haviam erguido barricadas no centro do Cairo, reforçando suas posições após os confrontos da quarta-feira.

Os milhares de manifestantes anti-Mubarak afirmam que as declarações feitas pelo presidente na terça-feira - de que não tentará a reeleição, mas seguirá no poder até setembro - seriam insuficientes. Eles querem a saída imediata do presidente.

Há relatos de diversos jornalistas de fora do Egito que acabaram agredidos, verbal ou fisicamente, ou que tiveram equipamentos confiscados.

Também nesta quinta-feira, a empresa britânica Vodafone, que opera celulares no Egito, disse que o governo egípcio a forçou a enviar mensagens de texto anônimas, pró-governistas, aos seus clientes no país.

A Vodafone disse que a atitude é inaceitável e vem ocorrendo desde o início dos protestos, na semana passada. A empresa disse que as mensagens deveriam ser claramente atribuídas ao governo.

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