Jovens manifestantes se dividem sobre futuro do Egito

Manifestantes anti e pró-governo em confronto no Cairo Direito de imagem AFP
Image caption Protestos populares iniciados no dia 25 já deixaram ao menos 10 mortos

Quatro jovens que participaram da formação de grupos no Facebook que convocaram os primeiros protestos no Egito contra o governo estão divididos sobre o futuro a transição de poder no país.

As primeiras manifestações populares no país, no início da semana passada, ocorreram após intensa campanha veiculada por grupos na internet, inspirados pelos protestos populares que haviam derrubado o governo da Tunísia duas semanas antes.

Como reação aos primeiros protestos, sites como o Facebook e o Twitter, além de serviços de envio de mensagem por celular, foram bloqueados no Egito, em uma tentativa das autoridades de impedir a organização de novas manifestações.

Os jovens que falaram à reportagem da BBC Brasil têm ensino superior, vêm de famílias de classe média e se dizem ansiosos por mudanças no país em que nasceram.

Hosni Mubarak, no poder há 30 anos, é o único presidente que conheceram, mas os quatro se dividem em suas opiniões sobre ele. Dois defendem a renúncia imediata de Mubarak, mas os outros dois preferem ver uma mudança gradual.

Haitham K., de 25 anos, formado em Direito, disse que prefere uma mudança segura, um plano de transição em que o presidente Mubarak deixasse o cargo após fazer reformas políticas que garantissem eleições transparentes.

“Não sou a favor de Mubarak, não gosto dele. Mas não acho que simplesmente sua renúncia fará o Egito melhor da noite para o dia. Precisamos de um plano de transição”, opinou.

O engenheiro de computação Maher Zain, 26, discorda do amigo e acha que o regime egípcio precisa cair já.

“São 30 anos de repressão, medo e mentiras. Esse governo não fará reformas, mais adiante ele voltará a reprimir”, disse.

Para ele, Mubarak está apenas enganando a população com suas promessas de reformas e apontando novos ministros para o governo.

“Nós temos capacidade para achar um novo líder. Se ficarmos com medo de mudanças, continuaremos sob as mesmas ideologias que nos reprimem há 30 anos”, falou Maher.

Revolta

Os protestos pacíficos contra o governo deram lugar a atos de violência entre manifestantes e militantes pró-Mubarak na tarde da última terça-feira. Os dois lados atiraram pedras e pedaços de pau uns nos outros.

Mas a violência aumentou quando a facção pró-Mubarak começou a arremessar rojões e coquetéis molotovs contra a multidão.

De acordo com o governo, pelo menos dez pessoas morreram e mais de 800 ficaram feridas.

Neveen Khalil, de 26 anos, é tradutora bilíngue e disse que considerou inicialmente que Mubarak merecia a chance de sair com dignidade, sem renunciar, promovendo uma abertura gradual.

“Mas depois do que vi na praça, vendo aqueles militantes arremessando molotovs e atirando contra uma manifestação pacífica, resolvi mudar de ideia. Agora acho que o presidente deve renunciar”, observou.

“Essas pessoas que estão lá são criminosos, que pouco se importam com o povo egípcio. Estão comprometidos apenas com a elite dominante”, disse.

A crise no Egito já dura 11 dias e até agora não surgiu um nome de consenso na oposição para o liderar o país em um governo de transição caso Mubarak decida sair.

“É por isso que eu acho que Mubarak deve ficar e promover uma mudança pensada e segura para o Egito”, disse Mohamed N., analista de sistemas.

Para ele, não há pessoas na oposição que tenham experiência de governo e de suas instituições.

“O Egito precisa de estabilidade e uma transição estável. Acho que Mubarak deve sair, mas de maneira segura. Quem está na oposição precisa aprender sobre o governo para que possa liderar”, disse.

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