Governo britânico facilitou libertação de responsável por Lockerbie, diz relatório

Abdelbasset Ali al-Megrahi
Image caption Abdelbasset Ali al-Megrahi foi o único condenado pelo ataque em Lockerbie

Uma investigação do governo britânico revelou que a gestão anterior, controlada pelo Partido Trabalhista, “fez tudo o que podia” para facilitar a soltura de um líbio responsável por planejar um atentado na Escócia.

O secretário do gabinete de ministros britânico, Gus O'Donnell, afirmou em relatório que havia um “desejo subjacente” para que o líbio Abdelbasset Ali al-Megrahi fosse liberado antes de morrer.

Megrahi foi acusado por um atentado em 1988, quando 270 pessoas morreram após uma explosão num voo da companhia aérea americana Pan Am, quando o avião sobrevoava a cidade escocesa de Lockerbie.

Condenado pela Justiça escocesa, ele foi preso, mas foi liberado em agosto do ano passado por razões humanitárias, depois que médicos consideraram que ele tinha apenas três meses de vida (Megrahi sofre de câncer de próstata). Ele foi recebido com grande festa na Líbia e ainda está vivo.

O relatório de Gus O'Donnell diz que, em 2008, o governo britânico adotou uma política de “fazer tudo o que podia, respeitando as competências delegadas, para facilitar um apelo dos líbios ao governo escocês para a transferência de Megrahi sob o ATP (acordo para transferência de prisioneiros) ou a soltura com base em compaixão”.

Ele diz que informações revelam que os ministros britânicos mudaram sua posição sobre o caso Megrahi devido a avaliações comerciais, incluindo o lobby da empresa petrolífera BP, que atua na Líbia.

Ainda assim, o relatório concluiu que as autoridades britânicas deixaram claro à Líbia que a decisão sobre o caso caberia aos ministros escoceses.

Embora integre a Grã-Bretanha, a Escócia tem um sistema judiciário independente.

‘Profundamente errada’

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, do Partido Conservador, classificou a soltura de Megrahi de “profundamente errada” e determinou a investigação do caso.

Em discurso no Parlamento britânico, ele rejeitou a acusação, investigada por uma comissão do Congresso americano, de que a soltura de Megrahi foi influenciada pelo lobby da BP junto a ministros da Grã-Bretanha.

“O ponto-chave que emerge da leitura dos papéis é: foi dada atenção insuficiente à questão mais básica de todas. Era realmente certo para o governo britânico facilitar um apelo feito pelos líbios ao governo escocês no caso de um indivíduo condenado por assassinar 270 pessoas, incluindo 43 cidadãos britânicos, 190 americanos e 19 de outras nacionalidades?”

Já o ex-premiê trabalhista Gordon Brown, que estava no poder quando o líbio foi solto, disse que a decisão foi tomada pelo secretário de Justiça escocês Kenny MacAskill e “mais ninguém”.

Brown, que como primeiro-ministro se recusou a dizer se apoiou a soltura de Megrahi, afirmou que deixou clara sua posição ao líder líbio, Muamar Khadafi, numa carta enviada em agosto de 2009.

“Quando a questão veio até mim, assumi a posição, como o relatório confirma, de que o governo britânico não deveria pressionar ou tentar usar influência nesta decisão judicial do ministro escocês.”

Estados Unidos

A maioria das 270 pessoas mortas no voo da Pan Am era dos Estados Unidos.

A americana Stephanie Bernstein, que perdeu o marido no atentado, disse à BBC: “É nojento, absolutamente chocante. Parece que o governo trabalhista estava agindo como advogados dos líbios.”

Segundo o correspondente da BBC em Washington Steve Kingstone, as famílias das vítimas americanas são céticas quanto à barreira institucional entre a Grã-Bretanha e decisões governamentais da Escócia.

"Não importa o que o secretário do gabinete diga, os americanos fazem um associação direta entre Edinburgo, Londres e a ambição comercial da BP”.

O senador por Nova Jersey Robert Menendez afirmou: “A Grã-Bretanha não só fechou os olhos para a soltura de Megrahi – eles firmaram acordos que deixaram o terrorista livre.”

O governo escocês, por sua vez, disse que o relatório do governo britânico “confirmam a consistência da posição do governo escocês em todos os sentidos”.

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