Manifestações no Egito continuam, apesar de diálogo

Manifestantes na Praça Tahrir nesta segunda-feira Direito de imagem Getty
Image caption Muitos manifestantes passaram a noite acampados na praça Tahrir

O diálogo iniciado entre o governo egípcio e a oposição, no domingo, não conseguiu conter os protestos populares contra o presidente Hosni Mubarak, que completam duas semanas nesta segunda-feira.

Milhares de manifestantes passaram a madrugada desta segunda-feira acampados na praça Tahrir, no centro do Cairo, e prometem manter os protestos até que Mubarak deixe o cargo.

O governo ofereceu uma série de concessões durante as negociações do domingo, mas a oposição diz que elas não foram suficientes.

Em mais uma indicação de que a vida no Egito ainda está longe de voltar ao normal, a Bolsa de Valores do Cairo, praticamente fechada desde o início dos protestos, adiou por pelo menos 24 horas a retomada dos negócios.

Grande parte do comércio na capital egípcia também está fechada, provocando problemas de desabastecimento e corrida dos egípcios por suprimentos.

Alguns bancos reabriram suas portas no domingo, após vários dias de fechamento, mas as escolas permanecem fechadas.

O valor da libra egípcia, que já havia caído 17% desde o início dos protestos, caiu mais 1,5% na abertura dos negócios nesta segunda-feira, numa indicação do impacto dos protestos sobre a economia do Egito.

Num novo teste para a economia local, o governo planeja o leilão de US$ 2,5 bilhões em títulos públicos de curto prazo, após o cancelamento de leilões na semana passada.

O governo tenta reanimar a economia do país, que, segundo estimativas, está perdendo pelo menos US$ 310 milhões por dia devido à crise.

Apesar das duas semanas de protestos nas ruas do Cairo e de outras grandes cidades do país, o presidente Hosni Mubarak - no poder desde 1981 - afirmou que não renunciará, mas prometeu não concorrer à reeleição. Seu atual mandato vence em setembro.

Mubarak já responsabilizou o grupo opositor Irmandade Muçulmana, mantido por ele na ilegalidade, pela organização das manifestações e afirma que se ele deixar o cargo, o grupo vai se aproveitar do caos político que se instalará.

Reunião

Na reunião deste domingo com a oposição, o vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, ofereceu a criação de um comitê para estudar reformas constitucionais.

No entanto, os grupos opositores, incluindo a Irmandade Muçulmana, reagiram com cautela à oferta. Alguns líderes disseram à BBC que estão céticos sobre as boas intenções do governo e que pediram uma série de medidas para restaurar a confiança entre os dois lados.

As exigências incluem o fim imediato das leis de emergência, que vigoram no país há 29 anos, dando grandes poderes de repressão ao Estado, e o fim do que a oposição chama de "incentivo à intimidação" por parte da televisão estatal.

Essa foi a primeira vez que representantes do governo e da Irmandade Muçulmana, uma organização oficialmente declarada ilegal no Egito, sentaram-se à mesa de negociações com o governo.

Segundo o correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne, havia uma ampla gama de representantes da oposição na reunião de domingo, incluindo nomes dos partidos Wafd e Tagammu, além de importantes figuras no país, como o empresário Naguib Sawiris.

A TV estatal afirmou que ficou acertada a criação de um comitê formado por juristas e figuras políticas incumbidos de sugerir mudanças constitucionais.

Os participantes também teriam condenado a interferência externa na resolução da crise no Egito e teriam dito que irão trabalhar por uma transição de poder pacífica.

Na semana passada, Suleiman convidou grupos de oposição para discutir reformas políticas antes das eleições em setembro, alertando a Irmandade Muçulmana de que se tratava de uma "oportunidade valiosa".

Anteriormente, o grupo oposicionista condicionava qualquer negociação à renúncia imediata do presidente Mubarak.

O grupo disse que as conversas deste domingo serviriam para avaliar se o governo estava preparado para a implementação de reformas políticas imediatas.

Obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou na noite de domingo que o Egito não vai voltar a ser igual ao que era antes do início dos protestos populares.

Em declarações que foram transmitidas pelo canal de TV americano Fox, Obama afirmou porém que não pode prever se o presidente egípcio renunciará ou não.

“Somente ele sabe o que vai fazer”, disse o presidente americano. “Os Estados Unidos não podem ordenar nada, mas o que podemos fazer é dizer que chegou a hora de começar a promover mudanças em seu país. Mubarak já decidiu que não vai mais concorrer (à Presidência).”

Obama também afirmou não acreditar que a Irmandade Muçulmana terá um papel importante em um eventual novo governo egípcio. “Acho que a Irmandade Muçulmana é apenas uma das facções no Egito”, disse Obama. “Eles não têm o apoio da maioria”, afirmou.

Apesar disso, ele reconheceu que o grupo é bem organizado e tem “traços de sua ideologia que são anti-americanos”. Ainda assim, Obama disse acreditar que haverá um governo com o qual os Estados Unidos possam colaborar “se o Egito passar por um processo de transição ordenado”.

As declarações seguem afirmações feitas também no domingo pela secretária de Estado americana, Hillary Clinton, de que forçar a saída rápida de Mubarak da Presidência poderia complicar a transformação democrática do Egito.

Para Hillary, a saída imediata de Mubarak poderia afetar as “ações significativas” já tomadas pelo atual presidente para iniciar o processo de reforma.

Ela observou que em caso de renúncia do presidente, a Constituição egípcia prevê a realização de novas eleições em um prazo de 60 dias, o que mesmo a oposição reconhece ser um prazo curto demais para a organização de eleições livres e justas.

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