Espanhola procura gêmea 'roubada' ao nascer durante ditadura de Franco

Mar Soriano foto arquivo pessoal
Image caption Mar Soriano: 'O Estado teria de investigar esse tema e não deixar as buscas a cargo das famílias'

Uma ativista espanhola afirma que sua irmã gêmea foi roubada do hospital pouco após o nascimento como parte de um esquema de sequestro de bebês durante a ditadura franquista.

Mar Soriano, que preside uma organização que faz campanha na Justiça pelo esclarecimento do suposto desaparecimento de milhares de bebês na Espanha, contou à BBC que sua irmã desapareceu em 1964, após o parto, na clínica O'Donnell, em Madri.

"Disseram aos meus pais que minha irmã tinha morrido de otite (inflamação no ouvido). Quem morre de otite? Não permitiram que visse o corpo, disseram que já havia sido enterrado em uma vala comum", disse Mar.

A história ficou guardada na sua memória até 1997, quando, em uma cidadezinha nos Alpes alemães, foi abordada por um desconhecido.

"Fui fazer uma conferência. Ele começou a falar comigo em alemão e eu não o entendia. A tradutora me explicou que ele estava certo de que eu era de uma família que ele conhecia. Ele insistiu, deu detalhes e, de repente, pensei que deveria se tratar de minha irmã", conta Mar.

Mais tarde, ela tentou contatar o homem que a abordara na Alemanha. "Até então eu não havia contado a história de minha irmã. Expliquei o caso por meio de um intermediário e ele me respondeu que deveria largar essa busca, que se continuasse, não teria ética nem moral, que estaria destruindo uma família... Não voltei a falar com ele".

Após esse episódio, Mar se deparou com vários casos como o seu, histórias de desaparecimentos em hospitais e de covas vazias.

Aos poucos, foi formada a Plataforma de Crianças Roubadas, da qual Mar é porta-voz. A organização hoje reúne 300 famílias, que apresentaram uma denúncia conjunta à Audiência Nacional - instância máxima do Judiciário no país - pedindo a investigação dos casos.

"Criamos a Plataforma e apresentamos os casos à Audiência Nacional para investigação, mas não ligam para nós, querem que esqueçamos. O Estado teria de investigar esse tema e não deixar as buscas a cargo das famílias", disse ela.

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Image caption Franco comandou regime ditatorial na Espanha de 1939 a 1973

Banco de dados

Segundo jornais espanhóis, o promotor-chefe a Audiência Nacional, Javier Zaragoza, disse que a investigação não seria de competência do Judiciário, mas, sim, do Ministério da Justiça, que, por sua vez, estuda a criação de um comitê para promover o intercâmbio de informações com as famílias e elaborar um banco de dados.

Outra organização que também representa famílias de crianças desaparecidas no mesmo período, a Associação Nacional de Afetados por Adoções Irregulares (Anadir), apresentou à Procuradoria Geral 260 casos para serem investigados.

A Anadir estima em 300 mil o número total de crianças que teria desaparecido em hospitais espanhóis desde o final da Guerra Civil (1936-1939) seria de 300 mil, mas alguns especialistas reduzem a cifra para 30 mil.

O tema é espinhoso, pois reabre antigas feridas no país, até hoje marcado por profundas divisões ideológicas.

"O incrível é que quando foi dado um passo em direção à democracia, não se criaram os órgãos, as comissões de busca, os tribunais, os bancos de dados genéticos", disse o investigador de Direito Penal Internacional da Universidade de Castilla-La Mancha, Miguel Àngel Rodríguez, pioneiro em investigações sobre possíveis saídas jurídicas nacionais e internacionais para lidar com casos de desaparecimentos durante o regime franquista, que comandou o país até 1975.

Beatriz, a irmã de Mar, teria desaparecido desta forma.

Mar Soriano não perde a esperança: "Sempre sonho com nosso encontro, em podermos ser amigas, apesar desta coisa terrível que aconteceu conosco".

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