Milhares rejeitam plano de transição em protestos no Egito

Cairo 8 de fevereiro/AP Direito de imagem BBC World Service
Image caption Os protestos vêm recebendo apoio de todos os setores da sociedade egípcia

Centenas de milhares de pessoas se reuniram nesta terça-feira na Praça Tahrir, no centro do Cairo, para pedir a renúncia imediata do presidente Hosni Mubarak, após o governo ter apresentado um plano de transição que não prevê a saída do líder até as eleições presidenciais de setembro.

O correspondente da BBC na capital egípcia Jim Muir afirma que este seria o protesto com o maior número de participantes desde o início da atual crise política no país árabe.

Tentativas do Exército de checar a identidade das pessoas que entravam no local foram abandonadas devido ao tamanho da multidão, que participa do 15º dia seguido de manifestações.

Leia mais na BBC Brasil: Egito anuncia plano de transição; protestos continuam

Grandes protestos foram também registrados nesta terça-feira nas cidades de Alexandria e Almançora, no norte do país.

Segundo Muir, a mensagem das ruas do Cairo nesta terça-feira é simples: existe apoio suficiente de todos os setores da sociedade egípcia aos protestos e as concessões do governo não são suficientes.

Motivação

"Não me importa o que eles estão prometendo. Nossa exigência é a mesma: Mubarak deve deixar o poder", disse a manifestante Mariam à correspondente da BBC News Yolande Knell.

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Image caption Milhares de manifestantes seguem exigindo a saída de Mubarak

Outro manifestante próximo disse ter 55 anos e que “tolera” o presidente há 30. “Esta geração mais jovem tem mais coragem que a minha. Eles nos motivaram”, afirmou.

Knell afirma que muitos manifestantes reconhecem que as concessões do governo são positivas, mas existe muita desconfiança em torno dos nomes do governo atual, incluindo o vice-presidente, Omar Suleiman, que até o início dos protestos era o chefe de Inteligência da administração Mubarak.

"Não confiamos mais nele. Como Suleiman pode garantir que não ocorrerá violência na época da eleição depois de todos os ataques que vimos contra os jovens?", pergunta Ahmed, um jovem egípcio.

França e EUA

Nesta terça-feira, o premiê francês, François Fillon, revelou que o governo egípcio pagou por suas férias, junto com sua família, no sul do Egito, entre 26 de dezembro e 2 de janeiro.

Fillon disse também que usou um avião oficial do governo para fazer a travessia entre Assuã e Abu Simbel, durante a viagem e que fazia agora as revelações "pelo interesse da transparência".

Os Estados Unidos voltaram nesta terça-feira a pedir para que o governo egípcio liberte imediatamente jornalistas e manifestantes detidos.

"O governo deve parar de prender manifestantes e jornalistas, cessar as perseguições e espancamentos. Estamos pedindo para que todos estes prisioneiros sejam libertados imediatamente", disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs.

Wikileaks

Também nesta terça-feira, o site Wikileaks revelou documentos secretos datados de 2008 que indicam que Suleiman era o nome preferido de Israel para suceder Mubarak.

Segundo os documentos, o então chefe de segurança egípcio mantinha um diálogo diário com o governo israelense sobre temas ligados ao controle de Gaza pelo grupo palestino Hamas.

A economia egípcia tem sido duramente atingida pela onda de protestos, iniciada no dia 25 de janeiro.

Na última sexta-feira, o governo afirmou que a crise vem custando cerca de US$ 310 milhões diariamente ao Egito e que a bolsa de valores do Cairo permanecerá fechada pelo menos até o final da semana.

A ONU calculou que cerca de 300 pessoas morreram desde o início dos protestos, mas a entidade de direitos humanos Human Rights Watch afirma que o serviço de Saúde controlado pelo governo do Egito vem tentando ocultar o número de mortos nos conflitos.

Leia mais: Egito tenta esconder número de mortos em conflitos, diz ONG

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