EUA pedem reformas imediatas ao governo do Egito

Manifestantes na praça Tahrir, no Cairo, na terça-feira Direito de imagem Reuters
Image caption Milhares de manifestantes seguem exigindo a saída de Mubarak

O governo dos Estados Unidos pediu na noite desta terça-feira que o Egito acelere o processo de reformas democráticas no país e suspenda imediatamente o estado de emergência, que vigora há 30 anos.

O vice-presidente americano, Joe Biden, fez o pedido durante uma conversa telefônica com o vice-presidente egípcio, Omar Suleiman.

Biden também afirmou que a polícia egípcia deve parar imediatamente de prender e agredir jornalistas e ativistas.

O Egito vem sendo palco há mais de duas semanas de grandes protestos populares contra o governo do presidente Hosni Mubarak, no poder há 30 anos.

As manifestações desta terça-feira na praça Tahrir, no centro do Cairo, foram uma das maiores desde o início dos protestos, no dia 25 de janeiro.

Elas ocorreram apesar dos anúncios do governo sobre um plano para reformas e uma transferência pacífica do poder.

Mubarak afirmou que permanecerá no poder até o fim de seu atual mandato, em setembro, quando devem ser realizadas novas eleições.

No domingo, Suleiman participou de uma reunião de diálogo com grupos opositores, incluindo a Irmandade Muçulmana, grupo mantido por Mubarak na ilegalidade, para discutir as reformas.

O governo anunciou a formação de um comitê para propor mudanças constitucionais e outro para promover as reformas.

Os opositores, porém, afirmaram que as ofertas feitas pelo governo não foram suficientes e que eles manterão os protestos.

‘Progresso imediato e irreversível’

Durante a conversa telefônica desta terça-feira, Biden disse a Suleiman que a transição para um governo mais amplo deveria produzir um progresso “imediato e irreversível”.

Segundo o editor da BBC para a América do Norte, Mark Mardell, o vice-presidente americano vem telefonando a Suleiman quase diariamente durante a crise, mas o tom da ligação desta terça-feira foi o mais duro até agora.

Biden afirmou que o poder do Ministério do Interior deve ser contido imediatamente e que deve haver uma política clara de não retaliar contra os manifestantes.

O porta-voz da Casa Branca Robert Gibbs afirmou que declarações de Suleiman feitas no domingo de que o Egito ainda não está pronto para a democracia foram “particularmente de pouca ajuda”.

O foco dos Estados Unidos parece não estar sobre o futuro de Mubarak em particular, mas sobre o que a Casa Branca classifica de “reformas concretas”.

Mardell observa que as repetidas sugestões feitas pelo governo americano ao longo da última semana foram em sua maior parte recebidas com relutância pelas autoridades egípcias e tiveram pouco resultado.

Manifestação

Na terça-feira, centenas de milhares de pessoas se reuniram na praça Tahrir, no centro do Cairo, para pedir a renúncia imediata de Mubarak.

O correspondente da BBC na capital egípcia Jim Muir afirma que este pode ter sido o protesto com o maior número de participantes desde o início da atual crise política no país árabe.

Tentativas do Exército de checar a identidade das pessoas que entravam no local foram abandonadas devido ao tamanho da multidão, que participa do 15º dia seguido de manifestações.

Grandes protestos foram também registrados nesta terça-feira nas cidades de Alexandria e Almançora, no norte do país.

Segundo Muir, a mensagem das ruas do Cairo nesta terça-feira é simples: existe apoio suficiente de todos os setores da sociedade egípcia aos protestos e as concessões do governo não são suficientes.

O executivo do Google e ativista egípcio Wael Ghonim, que foi libertado na segunda-feira após 12 dias detido, foi festejado pela multidão ao entrar na praça Tahrir.

Ele teria sido um dos responsáveis pela abertura de um grupo no site de relacionamentos sociais Facebook que teria sido usado para convocar as primeiras manifestações contra Mubarak, inspiradas nos protestos populares que levaram à renúncia do presidente da Tunísia, duas semanas antes.

“Não abandonaremos nossa demanda, que é a saída do regime”, afirmou Ghonim aos manifestantes.

Economia atingida

A economia egípcia tem sido duramente atingida pela onda de protestos, iniciada no dia 25 de janeiro.

Na última sexta-feira, o governo afirmou que a crise vem custando cerca de US$ 310 milhões diariamente ao Egito e que a bolsa de valores do Cairo permanecerá fechada pelo menos até o final da semana.

A ONU calculou que cerca de 300 pessoas morreram desde o início dos protestos, mas a entidade de direitos humanos Human Rights Watch afirma que o serviço de Saúde controlado pelo governo do Egito vem tentando ocultar o número de mortos nos conflitos.

Leia mais em: ONG acusa Egito de tentar esconder número de mortos em conflitos

Também nesta terça-feira, o site WikiLeaks revelou documentos secretos datados de 2008 que indicam que Suleiman era o nome preferido de Israel para suceder Mubarak.

Segundo os documentos, o então chefe de segurança egípcio mantinha um diálogo diário com o governo israelense sobre temas ligados ao controle de Gaza pelo grupo palestino Hamas.

Notícias relacionadas