Mubarak resiste a pressão e diz que fica no poder até eleições

Manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo Direito de imagem Reuters (audio)
Image caption Manifestantes vêm pedindo há 17 dias a renúncia de Mubarak

Frustrando expectativas de opositores, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, não renunciou ao cargo nesta quinta-feira e apenas reiterou seu “compromisso” de entregar o poder ao vencedor das eleições de setembro no país, à qual prometeu novamente não concorrer.

Por outro lado, o líder egípcio disse que transferirá parte de seus poderes a seu vice, Omar Suleiman, mas não especificou quais poderes exatamente.

“Como presidente, tenho que responder a seus chamados, mas não aceitarei ou ouvirei intervenções do exterior”, disse Mubarak em um aguardado pronunciamento na TV estatal egípcia, em resposta às pressões externas por sua saída do poder.

Mubarak se disse “orgulhoso” dos egípcios e “comprometido em cumprir minha responsabilidade de entregar (o poder) a quem for eleito em eleições livres (previstas para setembro)”.

Algumas horas antes, o presidente dos EUA, Barack Obama, havia declarado que “está claro que estamos vendo um momento histórico (no Egito)”.

“É um momento de transformação, porque o povo egípcio está pedindo mudanças. Uma nova geração quer que sua voz seja ouvida”, disse Obama, em discurso no Estado do Michigan. “Os EUA farão o que puderem para apoiar uma transição ordeira e genuína à democracia.”

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Há dez dias, Mubarak - que governa o Egito há quase três décadas – havia anunciado que não concorreria à reeleição, em setembro, uma concessão que foi considerada insuficiente pela maioria dos opositores ao seu governo.

Após o discurso do presidente, o vice Suleiman também fez pronunciamento na TV estatal, dizendo que os protestos nas ruas do país “foram bem-sucedidos em fazer uma mudança pela democracia”.

“Decisões constitucionais foram tomadas, comissões foram formadas para implementar o que o presidente (havia prometido) em seu discurso de 1º de fevereiro (quando disse que não concorreria à reeleição). O que o presidente anunciou hoje reforça seu apoio às demandas legítimas da população e seu comprometimento com suas promessas”, agregou Suleiman.

Especulações sobre renúncia

As especulações sobre a renúncia do presidente haviam começado horas antes, quando o premiê egípcio, Ahmed Shafiq, disse ao serviço árabe da BBC que a permanência de Mubarak no poder estava sendo discutida pelas autoridades do país.

O secretário-geral do partido do presidente (Partido Nacional Democrático), Hossan Badrawi, também havia declarado à BBC que pediu a Mubarak que transfira o poder a seu vice, Omar Suleiman, para “acomodar as demandas dos manifestantes”, e que esperava uma resposta “positiva” ao pedido.

Segundo Badrawi, Mubarak estava “mais preocupado com a estabilidade do país” e “não liga mais para o seu posto”.

O clima era de expectativa na Praça Tahrir, no Cairo, local onde a maioria dos manifestantes antigoverno se concentrou ao longo dos 17 dias consecutivos de protestos. Antes da fala de Mubarak na TV, muitos entoavam canções nacionalistas e hasteavam bandeiras.

Em seguida ao pronunciamento, a multidão na praça começou a erguer seus sapatos – sinal de desagravo no mundo árabe – e a gritar, pedindo pela saída de Mubarak.

Correspondentes da BBC na Praça Tahrir relatam que há um clima de decepção e incerteza quanto ao rumo do país.

Não está claro se Mubarak e o Exército estão alinhados ou rompidos, já que os militares haviam declarado, mais cedo nesta quinta, que as demandas da população seriam atendidas.

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